A história da economia brasileira contada através da venda de veículos

08

A história da economia brasileira pode ser contada através da evolução da venda de veículos. Veja o gráfico abaixo:

Venda de automóveis

Este gráfico mostra o número de automóveis licenciados nos 12 meses anteriores, entre dezembro de 1957 a setembro de 2015. Vamos chamar a atenção para 3 pontos:

1. Março de 1980: neste mês, a venda de veículos nos 12 meses anteriores atingiu o pico de 869 mil. O mundo começava a sentir os efeitos do segundo choque do petróleo no ano anterior, e o gigantesco aperto monetário norte-americano. Também pagamos a conta dos anos Geisel, em que ajustes necessários nas contas públicas foram postergados, em nome da “fuga para frente”. O resultado foi a queda da venda de veículos para 432 mil em janeiro de 1982, ou 50,3% menor do que a produção do pico, 22 meses depois. A venda ficou estagnada entre 450 e 650 mil veículos por ano durante toda a década de 80, vindo a recuperar o nível de março de 1980 somente em novembro de 1993, ou mais de 13 anos depois.

2. Outubro de 1997: a venda de veículos atinge um novo pico, de 1,67 milhão. Este novo pico foi alcançado graças ao fim do período de hiperinflação, com o Plano Real, a o consequente aumento do crédito a longo prazo. Este ciclo foi interrompido pela crise das economias emergentes, começando pela Tailândia em julho daquele ano, passando pela Rússia em agosto de 1998 e terminando com o próprio Brasil abandonando a âncora cambial em janeiro de 1999. A venda de veículos despencou 38,0% para 1,04 milhão em janeiro de 2000, ou . Houve uma certa recuperação nos anos seguintes, mas o pico anterior só seria retomado em março de 2007, ou quase 10 anos depois.

3. Maio de 2013: chegamos ao pico histórico: 3,21 milhões de veículos vendidos nos 12 meses anteriores. Crédito farto e incentivos fiscais para o setor fizeram com que a crise que derrubou as economias desenvolvidas em 2008 chegassem aqui como uma “marolinha”. Mas o gás acabou em 2013, e a venda de veículos começou a recuar. Primeiro de maneira imperceptível, mas a partir de 2014 mais acentuadamente. Hoje, estamos 25,8% abaixo do pico (2,38 milhões), mesmo nível de julho de 2008.

Resumindo:

Crise do petróleo:

  • Período de tempo entre o pico e o vale: 1 ano e 10 meses
  • Queda entre o pico e o vale: 50,3%
  • Período de tempo para recuperar o pico anterior: 13 anos e 8 meses

Crise dos emergentes:

  • Período de tempo entre o pico e o vale: 2 anos e 3 meses
  • Queda entre o pico e o vale: 38,0%
  • Período de tempo para recuperar o pico anterior: 9 anos e 6 meses

Se repetíssemos o padrão da 1a crise, teríamos os seguintes números:

  • Mês do mínimo desse ciclo: março de 2015
  • Número de veículos vendidos no mínimo do ciclo: 1,60 milhão
  • Mês da recuperação das vendas do pico: janeiro de 2027

Se repetíssemos o padrão da 2a crise, teríamos os seguintes números:

  • Mês do mínimo desse ciclo: agosto de 2015
  • Número de veículos vendidos no mínimo do ciclo: 1,99 milhão
  • Mês da recuperação das vendas do pico: novembro de 2022

Podemos perceber que esta crise está sendo menos violenta do que as duas anteriores, mas mais longa. Ainda não atingimos a queda das vendas do mínimo dos ciclos anteriores, mas já ultrapassamos o período de queda. É o que podemos ver no gráfico a seguir;

Comparação entre as crises

Neste gráfico, colocamos as 3 crises começando ao mesmo tempo: podemos observar que a crise atual (que chamei de “crise do crédito”) está sendo menos “acelerada”, mas promete ser bem mais prolongada. A recuperação aos níveis anteriores dependerá de se fazer tudo certo em termos de macroeconomia (um novo “Plano Real”) ou de termos um evento global salvador (uma nova “China”). Aguardemos as cenas dos próximos capítulos.

Compartilhe este artigo

Artigos relacionados

Comentários (08)

  1. Gostaria de expressar meu muito obrigado para o autor desse artigo, tive a felicidade de encontrar esse site navegando na internet obrigado! Att Luiz Carlos Casante

    Luiz Carlos Casante, em 19 de outubro de 2016. Responder
  2. Parabéns, pretendo fazer o mestrado de Economia esse ano, e sem dúvida seu site me ajudará. Ainda bem que descobri.

    Fernando Malheiros Martins, em 04 de janeiro de 2016. Responder
    • Fernando, obrigado! Divulgue o site, ele vive de seus leitores. Abraço!

      drmoney, em 05 de janeiro de 2016. Responder
  3. Muito interessante essa análise.
    Além de tudo o que foi dito não só no texto, mas também nos comentários, penso que parcela da recuperação está atrelada à análise crítica da dívida pública brasileira. Apesar do gasto anual juros e amortização da dívida, seu valor apenas aumenta. Evidentemente, há algo muito errado. A propósito, há alguns anos, o Equador auditou sua dívida pública, negando-se a pagar 70% do seu valor devido às ilegalidades apuradas. De quebra, isso liberou recursos para investimento em outras áreas. Curiosamente, há outras experiências de auditoria não só na América Latina, mas também na Europa. Acredito que esse seja um ponto sobre o qual o país deve agir urgentemente.

    André Silva, em 24 de novembro de 2015. Responder
  4. Em meu ponto de vista, acredito que país necessita de restruturação e reforma politica no sistema.
    O excesso de servidores ou funcionários chega a 2.7 milhões, onde gasto com folha de pagamento deixa um rombo no caixa. Pois sistema possui muito funcionários comissionados e em números fantasma, ou seja, sistema tema mais “cacique” do que índio.
    Outra coisa que destrói nossa renda é a falta de planejamento e pesquisa em infraestrutura, e garanto que não é taxa de juros e nem inflação que acaba com país.
    É só observar o tanto de obras feitas em todos os governos, seja eles de qualquer partido sem pesquisa e planejamento. exemplos…Usina de Gás onde não há Gás (Uruguaiana), Barragem do TUA, Barragem Norte, uma série de obras que se inicia com rascunho de projeto se quer com estudo de viabilidade.
    dimitatu

    dimitatu, em 27 de outubro de 2015. Responder
  5. Dr. Money, legal esta analogia entre crise e venda de automóveis.
    Hoje porém, me deparei com uma informação interessante, em 2011 o Brasil exportou 340.000 toneladas de janeiro a setembro, contra 460.000 toneladas de janeiro a setembro de 2015. Ao mesmo tempo, a tonelada exportada caiu de 200.000 dólares para 115.700 dólares.
    Esta queda de preços reflete a crise das commodities. Apesar de um ganho nas exportações de quase 35% (que reflete aumento da produtividade), houve uma queda de 42% no valor dos produtos exportados. Estes valores são 80% dos valores praticados na crise de 2008.
    O que se verifica então que a crise das commodities (incluindo aí o petróleo), atingiu fortemente países com economias dependentes das mesmas, entre elas o Canadá, a Austrália, a Noruega e mais fortemente o Brasil. E a crise se torna mais intensa no Brasil, pois não há fôlego para implantar políticas anti-cíclicas como as adotadas em 2008.
    Então, acredito que para o Brasil sair desta crise, não será um plano Real, e sim a recuperação dos preços das commodities.
    Por isso, acredito que seu gráfico ficaria mais interessante, se você acrescentasse as commodities energéticas e não energéticas em sua análise, e também baseasse sua previsão de recuperação econômica não só na venda de carros (mercado interno), mas nos preços das commodities (mercado externo).

    Allan Ferreira, em 21 de outubro de 2015. Responder
    • Allan, imagino que você esteja se referindo à exportação de aço, correto? (não está mencionado o produto).
      Na verdade, o aumento do quantum das exportações é fruto não do aumento de produtividade, mas da recessão doméstica, o que causa excesso de produção para a demanda interna.
      Sem dúvida, a queda dos preços das commodities impactou negativamente as economias produtoras. Mas o Brasil é um país fechado (apenas 25% do PIB de corrente comercial), de modo que o impacto no Brasil é menor do que em países como Austrália, Chile e Noruega, onde esta proporção é bem maior. De qualquer forma, acabou o super-ciclo das commodities, e outra deve demorar muito. Portanto, será melhor fazermos a lição de casa para aumentar a produtividade da economia que não fizemos no tempo da bonança, quando tínhamos condições melhores.

      drmoney, em 21 de outubro de 2015. Responder
  6. seu blog é excelente. sempre ótimas analises. show

    Saulo, em 07 de outubro de 2015. Responder

Escreva um comentário