A história da inflação brasileira nas capas de Veja
Há um intenso debate sobre o futuro da inflação no Brasil. O Banco Central optou por uma estratégia gradualista, procurando fazer a inflação convergir para a meta de 4,5% em um prazo mais longo, sem sacrificar demasiadamente a atividade econômica. No entanto, enquanto a convergência não chega, permanece a incerteza, e todos começam a desconfiar. Mas por que tamanho barulho por causa de uma inflação de 6,5%? Para os mais novos, e para aqueles com memória curta, resgatei as capas da revista Veja que retratam a história da inflação no Brasil. Espero, com isso, ajudar a entender a profunda aversão que o brasileiro sente pela inflação, e porque o governo não pode flertar com o dragão. (Os números de inflação mostrados a seguir são da FIPE, que tem o histórico mais longo disponível)
Veja foi lançada em 1968, mas a primeira capa tratando do tema da inflação só foi ser publicada em 03/05/72, no fim do período chamado “Milagre Econômico”, com grande crescimento e baixa inflação. Logo se viu que o crescimento não foi gratuito, mas movido a dívida pública, principalmente externa.Data: 03/05/72
Inflação deste mês: 0,66%
Inflação dos últimos 12 meses: 17,81%
Preço de Veja: Cr$ 3,50
Em 1973, Delfim Neto continuava sendo o Czar da Economia. Mas estava começando a perder a batalha contra a inflação.
Data: 24/01/73
O primeiro choque do petróleo ainda não havia ocorrido, mas a inflação já mudava de patamar, sem uma explicação convincente.
Data: 10/04/74
A um ritmo de uma por ano, Veja dedicava a sua capa ao tema da inflação. O primeiro choque do petróleo, em outubro de 1974, fez com que os preços da commodity quadruplicassem em apenas 3 meses, piorando, e muito, as perspectivas para a inflação.
Data: 27/08/75
A inflação assusta.
Data: 26/05/76
Uma de tantas capas de Veja dedicadas à batalha do governo contra a inflação. Na esmagadora parte das vezes, o governo sai inapelavelmente derrotado.Data: 08/09/76
Mais um manual de sobrevivência. Note como a inflação anual caminha aos saltos, depois de estabilizar em determinado patamar. A esta altura, o país já se acostumava a uma inflação de 40% ao ano, mas estava no meio do salto para os 50%.Data: 25/04/79
Delfim, o “santo” do milagre brasileiro, volta para o Ministério da Fazenda depois de um estágio no Ministério da Agricultura. Sua missão não será das mais fáceis. Basta lembrar que a inflação norte-americana atingiu dois dígitos em 1980, graças ao segundo choque do petróleo, em 1979.
Data: 23/01/80
A capa prevê a inflação daquele ano (1980), mas esta inflação estratosférica somente seria atingida dois anos depois. Lembro-me de uma faixa em um estádio da Espanha, durante a Copa de 1982: “Nossa seleção é como a nossa inflação: 100%”.Data: 18/06/80
Data: 28/07/82
A compreensão do fenômeno inflacionário estava longe de ser um consenso. Seriam necessários ainda muito sangue, suor e lágrimas para que ficasse claro que o governo não podia imprimir dinheiro à vontade.
Data: 05/04/83
Em 28 de fevereiro de 1986, o primeiro choque heterodoxo para tentar conter a inflação: troca do padrão monetário (cruzeiro para cruzado) e congelamento de preços e salários. Sarney na TV bradando “tem que dar certo”, e empresários presos de norte a sul por burlar o congelamento. Era a fase romântica do combate à hiperinflação.
Data: 02/04/86
Poucos meses depois, o Plano Cruzado começa a fazer água. Quão pouco os seus formuladores conheciam o fenômeno inflacionário…Data: 30/07/86
Ficou famosa a “Caçada ao Boi Gordo”, com o governo procurando reestabelecer a normalidade no fornecimento de carne. Mas não faltava só carne no país do congelamento de preços. Os empresários, veja só, não se dispunham a ter prejuízos por vender abaixo do seu custo de produção.
Data: 15/10/86
O governo joga a toalha…
Data: 13/05/87
Mais uma tentativa: o Plano Bresser.
Data: 17/06/87
Mais um guia de sobrevivência. Era o que nos restava.
Data: 31/08/88
O terceiro e último choque heterodoxo do governo Sarney, o plano Verão. Depois deste, somente a política do feijão-com-arroz do ministro Mailson da Nóbrega, à espera do fim do governo.
Data: 18/01/89
Collor assumiu com a promessa de acabar com a inflação com um único tiro. Confiscou contas correntes e cadernetas de poupança e mudou novamente a moeda para o Cruzeiro, cortando 3 zeros. Mas a inflação…
Data: 21/03/90
Deu errado. Vamos tentar o Plano Collor II. Seria o último choque heterodoxo, com congelamento de preços e salários.Data: 06/02/91
Collor deposto, Itamar no comando. O que fazer para acabar com a hiperinflação? O Plano Real estava às portas.
Data: 09/06/93
Fernando Henrique já é o Ministro da Fazenda, e muda a moeda novamente, o Cruzeiro Real, cortando 3 zeros. Lança também a URV (Unidade de Referência de Valor), uma moeda indexada, que a cada dia tinha um certo valor em Cruzeiros Reais, e que viria a se transformar no Real. As pessoas não entendiam como aquilo poderia acabar com o processo hiperinflacionário.
O lançamento do Real, um plano que conseguiu acabar com a hiperinflação sem congelamentos artificiais de preços.Data: 06/07/94
Um ano depois do seu lançamento, dúvidas ainda pairam sobre o sucesso da nova moeda. Mas quero fazer notar com esta edição um fato absolutamente inédito: o preço de Veja diminuiu!
Data: 28/06/95
A desvalorização cambial no início do segundo mandato de FHC é o maior desafio da nova moeda até aquele momento. Mas note a inflação dos últimos 12 meses…
Data: 10/03/99



















Muito bom!!!!!!
A guerra contra a inflação teve muitas batalhas,muitos comandantes e só poucos como Itamar Franco e Ferando Henrique que tiveram a coragem de dar o golpe mortal,arcando com a impopularidade de medidas que o povo nem se apercebia que era para o seu benefício.O livro da jornalista Miriam Leitão conta a história toda…
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Material perfeito ! ! Pena que o Brasileiro tem memória curta e não valoriza FHC, se não fosse ele arrumar a casa dúvido que nosso Glorioso LULA teria dado jeito nessa economia.
Excelente reconstrução do cenário histórico inflacionário do Brasil.
Extremamente didático. Parabéns.
Prezado Dr. Money, excelente artigo! Você por acaso já obteve e saberia dizer se eh possível obter junto a Veja essas matérias referentes a inflação?
Antônio, neste link (http://veja.abril.com.br/acervodigital/home.aspx) você terá acesso a todas as edições de Veja, desde o primeiro número. Bom divertimento!
Muito bom!!!!!!