Automóveis: foco errado
As vendas de automóveis vêm desacelerando a olhos vistos. Em artigo publicado no Estadão de 19/05 (As montadoras querem mais), Celso Ming acerta na mosca: o mercado está saturado, o consumidor está endividado, e os bancos estão com medo de perder mais dinheiro do que já perderam no segmento. Sinal de que algo não anda bem no modelo de empurrar a demanda para cima para ver se a oferta vai atrás. A reação do governo é a de sempre: estudar incentivos setoriais e forçar os bancos a aumentar a oferta de crédito, tanto em volume quanto em prazo. Com isso, tenta-se fazer o automóvel caber no orçamento já apertado da nova classe C. Se ao menos os preços dos automóveis pudessem recuar…
Tenho aqui uma modesta sugestão: por que não adotar com as montadoras a mesma estratégia adotada com os bancos? Ao declarar guerra ao spread bancário, o governo usou os seus bancos para baixar as taxas de juros. Poderia fazer o mesmo com as suas montadoras para forçar a queda dos preços dos automóveis! Ah, claro, já ia me esquecendo, o governo não tem montadoras à mão. Mas, então, bastaria importar automóveis mais baratos de outros países, de modo a aumentar a concorrência! Hein?! O governo fez justamento o contrário?!? Aumentou os impostos para diminuir a concorrência??? Não estou entendendo mais nada…
Pois é… segundo reportagem do portal R7 (Por que o carro no Brasil é tão caro?), mesmo aplicando-se a mesma alíquota do imposto nacional ao carro importado, o seu preço seria cerca de 30% menor que o preço nacional. A diferença está nos custos e na margem da montadora. Ao contrário dos bancos, onde a margem é conhecida nas estatísticas do BC e no balanço que deve ser público, a margem das montadoras é uma verdadeira caixa preta. Há alguma gordura para cortar? Pois a importação de carros mais baratos era um bom teste para se saber.
Vamos fazer uma conta simples: considerando uma taxa de financiamento de cerca de 22% ao ano (veja tabela completa aqui), um veículo de R$ 50 mil seria pago em 36 parcelas de R$ 1.856. Se você estivesse nos EUA, a taxa seria de aproximadamente 3,1% ao ano para um veículo novo (veja tabela aqui), e um veículo de mesmo valor sairia por 36 parcelas de R$ 1.456. Uma diferença de R$ 400 por mês, ou R$ 14.400 no preço total do veículo.
Vamos agora imaginar que você está comprando o mesmo veículo no México. Lá, em média, você vai pagar metade do preço (veja reportagem da Exame, Por que os carros brasileiros custam tão caro?). Portanto, R$ 25.000 a menos.
Assim, se as taxas de juros no Brasil fossem de primeiro mundo, você economizaria R$ 14.400 em um automóvel de R$ 50 mil. Por outro lado, se os preços dos automóveis fossem de primeiro mundo (ok, México não é primeiro mundo, mas vamos fazer de conta que é), você economizaria R$ 25.000 no mesmo automóvel. Pergunto: onde mesmo o governo deveria estar atuando se realmente quisesse aumentar o consumo de automóveis?
A realidade é que o mundo evoluiu tecnologicamente sua produção, reduzindo custos e despesas. O Brasil não acompanhou… O que poderia dar um ânimo na economia do brasileira seria uma boa… mas uma boa reforma tributária. Mas a morosidade e a “politicagem” não deixam. Economia e política precisam andar lado a lado.
O modelo industrial automobilístico está falido. Isto não só no Brasil, mas no mundo em geral. Adquiri um carro Coreano pelo valor de 110.000 R$. Após 3 anos de uso, a pergunta é, porque eu deveria trocá-lo? Mesmo com 80.000 Km ele mantém a mesma qualidade de quando o comprei. Faço revisões regulares e prezo pela sua manutenção. O que o modelo zero Km me oferece? Algumas firulas que não justificam em vender o meu usado por menos de R$ 60.000 e gastar mais R$ 60.000. Depois de 8-10 anos talvez eu precise trocá-lo, mas após este período, mesmo que eu entregue ele ao Ferro Velho, ele já se pagou (R$ 10.000 por cada ano de uso). Isto vale para outros bens duráveis, como linha branca, móveis,… No mundo atual, tão preocupado com sustentabilidade, não há espaço para o consumismo desenfreado. Mas este consumismo foi o modelo capitalista implantado no pós segunda guerra. Acabar com ele agora geraria desemprego, convulsão social, crises econômicas. Só que mantê-lo também levará o mundo a falência. O que fazer?
O governo é “parceiro” das montadoras. O problema não está nos juros e sim impostos e lucro absurdo.
Junto com o carro vem o seguro, taxas, impostos,… O governo ganha sua parte, montadora idem, e quem paga é o consumidor.
Governo e montadora continuam ganhando, o primeiro com os tributos e o segundo com as peças de reposição, pior ainda quando há a garantia de 5 anos, pois o consumidor perde o poder de negociação em nome de uma garantia que na prática não existe.
Polemico. Pessoalmente penso da seguinte maneira. Trabalho no ramo industrial e trabalho com produto japones, qualidade incontestavel(MITSUBISHI). Na minha area a industria brasileira que existia (Walter) acabou de ser “comprada” por uma israelense (Sandvik), quem conhece de usinagem sabe do que estou falando, e esta fadada a fechar. A curto prazo o liberalismo é bom por que temos produtos de qualidade em nosso mercado, porém a longo prazo a tecnologia brasileira nesse segmento nao tera desenvolvimento, muito pelo contrario, tera nada. Sendo assim nao é bom que esse liberalismo seja tao radical como esta proposto no texto, pois a industria brasileira nao irá evoluir. A curto prazo ve-se uma melhora em preço e qualidade, mas a longo prazo o cenário é de retrocesso.
Atenciosamente
Luis Finotti
Luís, entendo a sua preocupação. Mas o protecionismo é a saída fácil para um problema muito mais complexo. Sem as condições básicas para o investimento e a inovação (poupança interna, ambiente pró-negócios, sistema tributário pró-produção, capital humano, etc etc etc), o protecionismo só cria indústrias ineficientes e produtos caros. Uma política industrial digna de nome não pode somente focar no curto prazo, espalhando band-aids a torto e a direito. É preciso pensar o país como um todo. Talvez você seja jovem, e não se lembre da Reserva de Mercado no setor de Informática, que funcionou na década de 80. A ideia era justamente essa: criar tecnologia brasileira. O que se conseguiu foi sucatear as áreas de tecnologia de todas as outras industrias, que não podiam importar material de informática. O que sobrou daquela experiência? Nada. É isso o que se obtém do protecionismo no longo prazo.
Excelente artigo!
Não tenho o que acrescentar, apenas assinar em baixo. Parabéns
Abcs,
Hj comprar carro zero no Brasil não vejo sentido. Só daqueles que dão 5 anos de garantia, mas mesmo assim teria q avaliar. Os preços são abusivos.