Capital Humano: o maior gargalo de infra-estrutura

Cena 1: A Petrobrás enfrenta um déficit de 200.000 profissionais para o período de 2011-2015, a maior parte engenheiros. Atualmente está treinando 80.000, e está com imensa dificuldade para completar os quadros. Em 2010, a empresa “importou” mais de 4 mil engenheiros (Baixa qualificação prejudica avanço da Petrobrás).
Cena 2: A OAB reprovou 90% dos bachareis em direito no seu último exame (Reprovação no exame da OAB bate recorde – e há quem queira acabar com a prova).Cena 3: A Avaliação Brasileira do Final do Ciclo de Alfabetização (Prova ABC) mostra que alunos ao final do 3o ano (antiga 2a série) não conseguem ver as horas em um relógio digital, ou não entendem para que serve a pontuação em um texto. Os números: 44% não conseguem ler, 47% não conseguem escrever e 57% não sabem fazer contas. (Metade dos alunos de 8 anos não sabem o mínimo).

Muito se tem falado sobre os gargalos de infra-estrutura que impedem um crescimento maior do PIB brasileiro. Mas creio que o principal e mais difícil de ser resolvido é o gargalo da educação. As discussões giram em torno de grandes obras de geração de energia, transportes, estádios de futebol (ooops). Mas pouco se avança em termos de um planejamento estratégico de longo prazo para nos tirar desta situação, além das lamúrias que costumam acompanhar os resultados dos exames internacionais de proficiência.E por falar em exames internacionais de proficiência, um bastante respeitado é o PISA (Programme for International Student Assessment), em que estudantes de 70 países testam os seus conhecimentos em três áreas: Leitura, Matemática e Ciências. Os melhores resultados no exame de 2009 foram obtidos por China e Coréia do Sul, seguidos de perto por alguns países europeus, como Finlândia. Uma primeira explicação possível para estes resultados é a quantidade de dinheiro investido. Fiz então um cruzamento entre os resultados do PISA e o montante per/capita investido por país na educação básica, no conceito PPP (Purchase Power Parity) – dados da UNESCO, na média dos últimos 10 anos. Sendo a educação um serviço, seu custo tem a ver com o custo da mão-de-obra do país, razão pela qual o conceito de PPP é o mais adequado. O resultado vai no gráfico a seguir:

As linhas vermelhas são as medianas. Note que são raros os países que investem acima da mediana, e ao mesmo tempo apresentam um resultado abaixo da mediana. O exemplo mais negativo é a Sérvia. Por outro lado, existem países que são o inverso: investem abaixo da mediana, mas obtêm resultados acima da mediana. É o caso da Coréia. Os dois países são exemplos de que dinheiro não é tudo. Mas é importante, a se julgar pelo padrão mais comum: quem investe pouco, geralmente tem resultados medíocres, ao passo que quem investe muito, geralmente tem resultados melhores. O Brasil está no primeiro grupo: investe meros US$ 1.000/criança/ano, e obteve cerca de 400 pontos no PISA.

Uma forma de avaliar se o dinheiro gasto com educação está sendo bem gasto, é verificar para onde os recursos estão sendo direcionados. No caso do PISA, é a educação básica que está sendo avaliada. Os governos, no entanto, direcionam recursos para a educação básica e também para o ensino superior. Vimos que o aluno da educação básica tem recebido cerca de US$ 1.000/ano no Brasil. Por outro lado, o aluno do ensino superior recebe cerca de US$ 3.300/ano. Ou seja, 3,3 vezes mais. Somente três países do universo do PISA possuem uma relação maior: Tunísia (3,9), Hong Kong (4,1) e Emirados Árabes (4,2). Destes, apenas Hong Kong tem um PISA acima da mediana. Aliás, apenas mais dois países possuem esta relação acima de 3: (México: 3,0) e Turquia (3,1). Todos com PISA abaixo da mediana. Quero deixar claro, no entanto, que este não é um fator decisivo: há países com PISA alto, e relação alta entre o que se gasta com ensino superior e ensino primário. E vice-versa.

De qualquer modo, é mais do que chegada a hora de encarar este grande desafio: o de tornar o capital humano brasileiro mais produtivo e competitivo. Esta sim é uma área estratégica, onde o Estado deveria atuar decididamente. E não na construção do trem-bala ou de estádios para a Copa do Mundo…

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