Bate-papo no Planalto

Nos idos da segunda metade de década de 80, com a inflação insistindo em não se deixar controlar, tornou-se lugar-comum a proposta de um chamado “pacto social”. Reunido com empresários e sindicalistas, o governo tentava, em reuniões infrutíferas, um acordo que permitisse o controle de preços e salários. Obviamente, aquilo nunca deu certo. E os motivos são simples de se entender: além de não existir confiança entre as partes, ocorre que o sistema de preços é algo extremamente complexo, o que inviabiliza qualquer tentativa de controle artificial e centralizado.

A lembrança daqueles tempos me veio à memória quando li a notícia sobre a reunião da presidente Dilma com metade do PIB do país (aqui). A intenção era entender, afinal, o que está faltando para que os empresários invistam mais. Como vocês sabem, o resultado do PIB de 2011 foi um fiasco, sendo o item “investimentos”, além da indústria, o grande responsável. E os investimentos, como vimos no post O segredo do crescimento econômico, são um dos principais fatores do crescimento de uma economia no longo prazo. E é fácil de entender porque: o investimento cria capacidade produtiva, aumentando a oferta, e permitindo que a demanda aumente sem pressões inflacionárias e sem pressionar as contas correntes do país.

Pois bem, e o que tem a ver esta reunião com os malfadados “pactos sociais” que nunca deram certo? Os dois padecem do mesmo mal: o de achar que os problemas econômicos se resolvem com uma boa conversa. Os empresários dizem o que precisam, o governo tenta uma ou outra medida na direção dos pedidos e… pronto!

Pois é, se fosse assim tão fácil… ocorre que os pedidos daquela amostra de empresários beneficiam a si próprios e, no máximo, às empresas de seus setores, mas não há garantia nenhuma de que beneficiem a economia como um todo. Vejamos três exemplos:

1) Aumento da alíquota de importação para certos produtos. Sem a concorrência externa, o empresário pode aumentar os seus preços (afinal, é para isso que serve a proteção, não é mesmo?). Aumentando os seus preços, sobra menos dinheiro no bolso do consumidor, que deixa de comprar outros produtos. Assim, a proteção a um setor prejudica todos os outros setores não protegidos.

2) “Controle” do nível do câmbio. O câmbio é um preço especial da economia. Tentar determinar o nível “justo” do câmbio é o mesmo que tentar determinar o nível justo de todos os preços da economia. Cabe a pergunta: justo para quem, cara-pálida? Muitos setores da indústria dependem de insumos importados para produzir, e um câmbio muito depreciado prejudica a sua atividade. Assim, aqui também temos o caso da escolha de alguns setores em detrimento de outros.

3) Empréstimos do BNDES: com suas taxas subsidiadas, o BNDES “elege” as empresas que terão um custo de capital mais baixo. Como o nível neutro de juros da economia é dado, a contrapartida, não se engane, é que o resto da sociedade pagará juros mais altos. O governo acha que consegue eleger os setores que mais alavancarão o crescimento econômico.

Existe por trás dessas medidas a mesma ilusão do congelamento de preços e salários: a de que o governo consegue centralizar o planejamento da economia. Assim, elegendo alguns setores em detrimento de outros, o governo, no máximo, consegue distorcer o sistema de preços, o que é muito danoso para o crescimento de longo prazo. Tivemos que enfrentar anos de hiperinflação até entender que a inflação se combate com disciplina monetária e fiscal. Quantos anos de crescimento baixo teremos que enfrentar até que entendamos que o crescimento econômico só se consegue com reformas estruturais que eliminem os gargalos de formação de capital, tanto físico quanto humano?

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