Bragal. Ou o Brasil com um pé na Europa.

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Em uma nota com o típico humor inglês, o Financial Times propõe uma solução “out-of-the-box” para os problemas enfrentados por Portugal: deixar-se anexar pelo Brasil.Segundo o FT (artigo aqui, para assinantes), o Brasil vem crescendo a pelo menos 4% ao ano nos últimos 10 anos, tem contas correntes e fiscais bem menos deficitárias e menores “spreads” de crédito (risco de crédito menor). Seria tudo de bom para Portugal.

Vamos levar a brincadeira um pouco mais adiante. Todos devem se lembrar do post em que mostro o mapa do Brasil, com os estados brasileiros sendo substituídos por países com PIBs equivalentes (aqui). Veja o mesmo mapa, mas agora com Portugal, que seria o segundo estado do Brasil em termos de PIB (equivalente ao RJ).

E como seria o país combinado Brasil-Portugal? O Bragal (como chamaremos o novo país daqui em diante), teria um PIB de US$ 2,25 trilhões, cerca de 11% maior que PIB atual do Brasil. Não serviria para subir no ranking (atualmente o Brasil é o 7º maior PIB do mundo), mas encostaríamos na Inglaterra (PIB de US$ 2,26 trilhões). O PIB/capita melhoria apenas marginalmente, de US$ 10,5 mil para US$ 11,0 mil.

Com relação aos principais indicadores de solvência, não haveria piora significativa para o Brasil. O déficit fiscal do Brasil é de 2,6% do PIB, enquanto o de Portugal é de 8,6% do PIB; já o Bragal teria déficit fiscal de 3,0%. O déficit em contas correntes do Brasil passaria de 2,6% do PIB para 3,3% do PIB quando se transformasse em Bragal, ao incorporar os 10% do PIB de déficit de Portugal. Já a dívida líquida em relação ao PIB do Bragal seria de 44% do PIB, contra os atuais 40% do Brasil.

E como se daria essa incorporação? Bem, o Brasil precisaria, em primeiro lugar, trocar a dívida de Portugal em poder dos credores por dívida brasileira. Ou melhor, bragaleira (ou bragalesa, termo ainda a ser definido pela Acadamia Bragaleira (ou Bragalesa) de Letras). A dívida total de Portugal, hoje, equivale a aproximadamente US$ 185 bilhões. Com mais de R$ 300 bilhões em reservas internacionais, o Brasil não teria dificuldade em realizar esta troca. Com a vantagem de diminuir bastante o custo da dívida: um título federal brasileiro negociado no exterior está pagando uma taxa de aproximadamente 4% ao ano. Já os títulos portugueses estão sendo rolados a mais de 7% ao ano, e subindo… No último dia 29, a Standard & Poors rebaixou a nota de crédito de Portugal para BBB-, o mesmo nível do Brasil. Ou seja, não haveria dificuldade em estabelecer a nota de crédito do Bragal.

Brincadeiras à parte: a presidente Dilma colocou o Brasil à disposição da Pátria-Mãe para ajudá-los nessa quadra difícil. O ex-presidente Lula, inclusive, aconselhou-os a não aceitar a ajuda do FMI. Ajudar Portugal, neste momento, significa comprar títulos de sua dívida. É preciso entender exatamente como isso se daria. Portugal tem comprador para os seus títulos, mas a uma taxa que eles consideram abusiva. Para ajudar, o Brasil teria que adquirir esses títulos a uma taxa mais baixa. Tudo certo, se Portugal efetivamente conseguir honrar os seus compromissos. Mas as taxas estão onde estão porque os financiadores estão desconfiados de que Portugal não vai conseguir. A recém-renúncia do primeiro ministro Sócrates não ajudou muito nessa percepção. Só esperamos que os responsáveis pela administração do dinheiro público pensem primeiro nas necessidades dos donos do dinheiro. Ou seja, nós.

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Comentários (01)

  1. eu acho que os portugueses tinham que ficar calmos e confiar no brasil terra que DEUS escolheu

    david ribeiro, em 03 de setembro de 2012. Responder

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