Mitos e verdades sobre a tragédia grega

08

Muito se tem falado sobre a crise sem fim da Grécia. Mais recentemente, o foco tem sido, como não poderia deixar de ser, na vitória do Syriza nas últimas eleições, e nas promessas redentoras do novo primeiro ministro, Alexis Tsipras. O tom, via de regra, é de que a Grécia purgou todos os seus pecados, e já estaria por merecer o céu dos bons pagadores. E que a Troika, sendo o braço operativo da Alemanha, estaria sendo cruel demais com os gregos, em um movimento contra-producente, que levaria, mais cedo ou mais tarde, à dissolução do Euro. Um resultado não desejado por ninguém.

Eu raras vezes vi tanta bobagem escrita em tão pouco espaço de tempo. Por isso, resolvi escrever este “myth-buster”, para tentar humildemente contribuir para o debate. Vejamos.

Mito 1: A dívida da Grécia está em 170% do PIB. É impagável, e deveria portanto ser parcialmente perdoada, para deixar de ser um fardo para o seu povo.

Verdade 1: dívidas existem para serem roladas, não pagas.

Os credores não querem o seu dinheiro de volta. Eles não têm o que fazer com ele. Eles querem os juros pagos pelo dinheiro investido. Só isso. Quando os credores desconfiam da capacidade de pagamento do devedor, eles resgatam e emprestam para outro devedor. Repito: eles não querem o dinheiro, não têm o que fazer com ele.

O que faz um país (ou empresa, ou indivíduo) sofrer por conta da dívida é o nível da taxa de juros. O Brasil, com sua relação dívida/PIB de 60% e taxa de juros de 12% ao ano, sofre muito mais do que a Grécia, com sua relação dívida/PIB de 170% e taxa de juros de 0,5% ao ano. O Japão tem uma relação dívida/PIB de mais de 200%, e não se ouve ninguém falando que é necessário um “abatimento” da dívida. Abater a dívida da Grécia não resolveria o problema dos gregos. Ou eles acham que conseguiriam voltar a ter déficits de até 14% do PIB, como faziam antes da crise?

A Grécia tirou o bilhete premiado ao conseguir a carteirinha de sócio da zona do Euro. Com isso, conseguiu taxas de juros muito mais baixas do que seria possível com suas próprias forças, o que lhe permitiu aumentar em muito a sua dívida. Talvez tenha sido essa a sua desgraça: ao ter acesso ao mercado de capitais a juros muito baixos, endividou-se muito acima daquilo que seria prudente dadas as suas condições de geração de riquezas.

Mito 2: O programa de austeridade não funcionou. A relação dívida/PIB era de 110% em 2008 e saltou para 170% agora em 2014. Ou seja, todo o sacrifício do povo grego foi em vão.

Verdade 2: O programa de austeridade funcionou. A relação dívida/PIB está estável desde 2011. Veja o gráfico a seguir:

Grécia relação dívida PIB

Observe como a relação dívida/PIB cresceu de maneira exponencial a partir de 2008, e vem permanecendo constante por volta de 170% a partir de 2011. O primeiro-ministro George Papandreou recorreu pela primeira vez à Troika em abril de 2010, e os primeiros pacotes de austeridade foram implantados ao longo deste ano, tendo efeito completo a partir de 2011.

E por que a dívida aumentou tanto de 2008 até 2011, poderá perguntar o arguto leitor, com razão. A resposta tem duas partes: a primeira refere-se aos pacotes anti-cíclicos adotados por todos os países do mundo depois da crise financeira do final de 2008, e que elevou as dívidas mundo afora. Mas no caso da Grécia, houve uma importante segunda parte: foram retirados do armário vários esqueletos fiscais, descobertos pela União Europeia quando a crise sobreveio. Há um ditado comum no mercado financeiro, que diz que quando o nível da piscina baixa, descobrimos quem está nadando pelado. Pois é, descobriu-se que a Grécia estava completamente nua.

Michael Lewis, em seu livro Boomerang, narra uma entrevista paradigmática com o então recém empossado ministro das finanças George Papaconstantinou, em 2010. Quando Papaconstantinou tomou posse, em outubro de 2009, o déficit estimado para 2009 era de 3,7% do PIB. Duas semanas depois, esse déficit já tinha sido revisado para 12,5% do PIB, e no final do processo acabou em 14% do PIB. O ministro narra assim o processo: “No segundo dia de trabalho, eu tinha chamado uma reunião para dar uma olhada no orçamento. Reuni todos da contabilidade, e começamos, digamos, esse processo de descobrimento”. Cada dia eles descobriam alguma omissão incrível. Uma dívida previdenciária de um bilhão de dólares por ano de alguma maneira ficou fora dos livros, mesmo com o governo pagando por ela; o rombo no fundo de pensão para os autônomos não era de 300 milhões de euros, mas de 1,1 bilhão; e assim por diante. “No final de cada dia, eu dizia: ‘Ok, amigos, isso é tudo?’ E eles diziam, ‘Yeah’. Na manhã seguinte, uma pequena mão levantava no fundo da sala: ‘Na verdade, Ministro, há este outro furo de 100-200 milhões de euros”. Isto durou uma semana. Entre outras coisas, surgiu um grande número de programas não contabilizados para a criação de empregos. […] No último dia de descobrimentos, depois da última mãozinha ter se levantado no fundo da sala de reuniões, um déficit projetado de aproximadamente 7 bilhões de euros era na verdade um rombo de mais de 30 bilhões de euros”.

Mito 3: Fazer um programa de austeridade nas atuais condições da Grécia é uma insanidade, que só pode passar na cabeça de sadomasoquistas ideológicos, para quem o superávit primário é uma espécie de divindade.

Verdade 3: Qualquer política anti-cíclica só tem viabilidade quando o país tem credibilidade diante de seus credores.

Os Estados Unidos fizeram política monetária e fiscal anti-cíclica a partir de 2008. Sua relação dívida/PIB subiu de 70% para 100%. A S&P chegou a rebaixar a nota de crédito norte-americana. O mercado financeiro, no entanto, nem piscou. Por que? Porque os EUA, assim como a Alemanha e a Inglaterra, construíram um track-record de longo prazo de credibilidade. Thomas Piketty, em seu best seller O Capital no Século XXI, dá o exemplo da Inglaterra, que havia acumulado dívidas da ordem de 200% do PIB em 1815, após as guerras napoleônicas e a guerra da independência dos EUA. A partir daí, para diminuir a sua dívida, a Inglaterra produziu superávits primários de 2%-3% durante um século – um século! – diminuindo a sua dívida para 30% do PIB em 1910.

Confiança é o nome do jogo no mercado financeiro. Pelo que lemos acima, essa é mercadoria em falta na Grécia. É exatamente o mesmo problema que enfrentamos hoje no Brasil: com a atividade econômica em baixa, deveríamos estar promovendo uma expansão fiscal. Só tem um detalhe: os investidores começam a desconfiar que o Brasil não tem condições de pagar a sua dívida, razão pela qual as agências de risco ameaçam jogar a dívida brasileira na vala dos junk bonds. Perdemos a confiança dos nossos financiadores e, com isso, a liberdade de fazer expansão fiscal contra-cíclica.

Mito 4: Apertar demais as condições de sobrevivência de um povo pode gerar efeitos devastadores. Vide a ascenção do nazismo na Alemanha após a Primeira Guerra Mundial.

Verdade 4: O nazismo na Alemanha é um fenômeno que trascende em muito a esfera puramente econômica. Se assim não fosse, algum ditador maluco teria assumido também nos EUA, onde o PIB recuou 25% durante a Grande Depressão.

Na verdade, a relação entre “aperto econômico” e “crime” está longe de ser bem estabelecida. Crime é assunto pertencente à esfera moral. Algumas pessoas que passam necessidades econômicas vão para o crime. A maioria, não. Algumas pessoas que NÃO passam necessidades econômicas vão para o crime (vide a Operação Lava-Jato). A maioria, não. Atitudes que violam regras morais pouco ou nada têm a ver com a mudança de condição econômica de uma pessoa. Uma pessoa não passa de honesta para desonesta pelo fato de ter empobrecido. Este conceito, na verdade, embute um preconceito ignóbil: o de que os pobres seriam mais desonestos que os ricos.

O mesmo ocorre com os povos. Hannah Arendt, em sua obra As Origens do Totalitarismo, descreve a ascenção do nazismo na Alemanha e do comunismo na Rússia (dois sistemas totalitários) como sendo fruto de um longo processo de destruição da condição humana. Nesses sistemas, o ser humano somente tem valor na medida em que é útil ao sistema, e pode ser eliminado se não cumpre este papel. Quão distante estamos da simplória “vingança contra os vencedores” que embasa a tese da ascenção do nazismo como uma resposta às dificuldades econômicas da Alemanha na década de 20.

Mito 5: O povo grego não aguenta mais austeridade.

Verdade 5: O povo grego, mesmo depois desses anos todos de austeridade, continua figurando entre os mais ricos do mundo.

Em 2007, a renda per capita da Grécia (pelo critério da PPP-Purchase Power Parity) era de US$ 29.800. Com isso, o país ocupava a posição 34 dentre os países mais ricos do mundo. A crise bateu forte, e hoje a Grécia tem renda per capita de US$ 25.750, ocupando a posição 44 no mesmo ranking. Apenas como comparação, o Brasil tinha renda per capita de US$ 12.100 em 2007, ocupando a posição 76, e hoje a renda per capita é de US$ 15.15o, ocupando a posição 77. Ou seja, em 2007, o grego médio era 2,5x mais rico que o brasileiro médio. Em 2014, passou a ser “apenas” 1,7x mais rico.

A questão não está no nível, mas na queda do nível. O ser humano acostuma-se a um determinado padrão de vida, e, uma vez acostumado, é muito difícil abrir mão. Aliás, está aí a origem de muitas das desventuras financeiras de pessoas que têm dinheiro: as condições econômicas mudam, mas as pessoas demoram a adaptar o seu padrão de vida.

No caso dos países, a questão é mais complexa, pois existe a ilusão de que o Estado pode continuar a prover o mesmo padrão de vida para sempre. A noção de “restrição orçamentária”, tão clara quando se trata de indivíduos, se perde no cabo-de-guerra entre os vários grupos de interesse de um país. Assim, os funcionários públicos culpam os ricos que não pagam impostos, os ricos culpam as modormias dos funcionários públicos, e os pobres culpam o governo por proteger os dois grupos anteriores. Todos têm razão, mas isso não resolve o problema do cobertor curto: todos deverão adaptar as suas vidas a um novo padrão mais espartano, simplesmente porque ficaram mais pobres. Ou nunca foram tão ricos quanto imaginavam.

Mito 6: a austeridade está trabalhando contra os próprios credores. A Grécia não vai conseguir pagar nunca as suas dívidas se não voltar a crescer, e não voltará a crescer se continuar com esse programa de austeridade.

Verdade 6: o que faz o crescimento de um país é o investimento no aumento da produtividade dos fatores de produção, e não incentivos fiscais.

Esta é a cantilena predileta de Paul Krugman e de todos os economistas auto-intitulados “desenvolvimentistas”: o Estado cria crescimento econômico, através de incentivos fiscais, de preferência nas cadeias produtivas mais “multiplicadoras” (automóveis e petróleo, por exemplo). Nós, brasileiros, deveríamos ser os primeiros a repudiar este argumento: os últimos 4 anos são uma demonstração inequívoca da mentira que representa esta argumentação. Hoje temos uma das piores estagflações da história brasileira recente, mesmo depois de termos zerado nosso superávit primário e de termos aumentado o orçamento do BNDES a 10% do PIB, o maior nível da história!

O que cria crescimento econômico é o investimento privado, que só existe com instituições sólidas e regras estáveis. Simples assim. O resto é macumba desenvolvimentista.

Compartilhe este artigo

Artigos relacionados

Comentários (08)

  1. Dr. Money, a tragédia grega está assumindo um nível que está assustando os americanos. E aí temos uma situação complicada:
    1) Os alemães pensam que, se perdoarem ou flexibilizarem o pagamento da dívida grega, espanhóis e portugueses serão os primeiros a chiar, e exigir condições equivalentes, arrastando a Eurozona para um desajuste fiscal sem precedentes…
    2) Os americanos pensam na posição estratégica militar dos gregos, no Mediterrâneo. Permitir que a China ou a Rússia capturem a Grécia para a sua esfera de influência não é de interesse dos EUA. Depois dos atritos com a Rússia para capturar a Ucrânia para a Comunidade Européia, os EUA sabem que perder a Grécia é perder um aliado estratégico.
    3) Se a Alemanha não fizer nada, os EUA vão fazer. Já sinalizaram por meio do FMI (que é controlado em sua maior parte pelos EUA) auxílio a Grécia, caso seja procurado. Alexis Tsipras, com apoio da população, agora irá negociar com quem estiver interessado em negociar: chineses, russos, americanos, FMI… Neste momento os gregos podem conseguir uma negociação muito melhor com outros agentes, que querem aumentar seu softpower na Europa, do que com a Eurozona e a Alemanha.
    4) Então vejo hoje uma queda de braço entre Alemanha e EUA. Quem vai ganhar? Não sei, mas independente do resultado, a vitória do Não pode ter sido a primeira peça a cair do dominó que se chama Mercado Comum Europeu.

    ALLAN, em 06 de julho de 2015. Responder
  2. Parabéns pela análise!

    Como você disse, “as condições econômicas mudam, mas as pessoas demoram a adaptar o seu padrão de vida”.

    É o que milhões de brasileiros estão vivenciando hoje na pele: uma corrosão do seu poder de compra, fruto de um Governo gastador que estimulou a demanda até o ponto de, literalmente, secar a fonte e o povo não ter mais de onde tirar crédito.

    Vou compartilhar seu artigo em minha fanpage, pois creio que é um bom apanhado para quem gostaria de entender rapidamente a “tragédia” grega atual.

    Tiago Balthazar, em 23 de junho de 2015. Responder
  3. Excelente artigo Dr. Money ! Sintético, didático e extremamente elucidativo!

    Eduardo Seixas, em 25 de março de 2015. Responder
  4. Olá, Dr. Money
    a) Sobre o mito 3, muitos dizem que esse esforço fiscal da Inglaterra foi um dos motivos da mesma perder a preponderância mundial para outros atores, inclusive por baixos investimentos em educação. Se é verdade, eu não sei, mas como você citou o Piketty, ele diz expressamente isso quando fala da redução Dívida/PIB da Inglaterra no período apontado;
    b) Sobre o mito 4, parece-me um pouco simplificado demais. Em nenhum momento se quer taxar pobres de potenciais criminosos, isso não faz o menor sentido. Entretanto, a deterioração econômica profunda de uma sociedade pode, e há inúmeros exemplos históricos, levar a profundas crises sociais que pode sim levar à ascensão de regimes totalitários seja de direita ou de esquerda. Não precisa existir campos de extermínio ou Gulags para que um sistema seja totalitário. Restringir isso a uma questão moral (creio que quis se referir a uma questão ética), não me parece acertado. Cada momento histórico produz os seus próprios resultados;

    Sobre o restante do texto, concordo que os Gregos se colocaram nessa situação, aliás há um artigo muito bem elaborado no Mises abordando os juros, maturidade, da dívida Grega e comparando com outros países europeus. Percebe-se que a Grécia está longe de ter os piores parâmetros.

    Abraço!

    soulsurfer, em 14 de março de 2015. Responder
    • Sim, o Piketty diz que a Inglaterra perdeu a preponderância porque fez superávit fiscal, o que supostamente teria diminuído seus gastos com educação. Há pelo menos três falhas nesse raciocínio:
      1) Infelizmente, ele não traz um dado sequer que corrobore sua tese. Ele precisaria mostrar os gastos com educação na Inglaterra no século XVIII e ao longo do século XIX, comparado com outros países.
      2) Gastos com educação bancados pelo Estado é um fenômeno do século XX, quando se tem a implantação do Estado de Bem Estar Social. Antes disso, a educação é eminentemente de iniciativa privada, principalmente a cargo de entidades religiosas. Talvez por isso Piketty não tenha esses dados.
      3) A Inglaterra perdeu a sua hegemonia para os Estados Unidos, um país muito maior mas com exatamente o mesmo “mindset”. Ou seja, as ideias anglo-saxônicas sobre finanças públicas continuaram ditando as regras (até hoje, por sinal).

      Com relação ao surgimento de regimes totalitários, é justamente o contrário: a simplificação reside na relação automática entre “surgimento de regimes totalitários” e “dificuldades econômicas”. Para começar, regimes totalitários são um fenômeno do século XX: nazismo na Alemanha e comunismo na Rússia e na China de Mao Tse Tung. Os seus “inúmeros exemplos históricos” não são tão inúmeros assim. E, sim, Gulags e campos de concentração são um componente necessário do regime totalitário, onde o “inimigo externo” ou o “inimigo interno” do regime é eliminado. É diferente de um regime autoritário (como a China de hoje ou o Brasil do regime militar), em que o inimigo é calado em bases esporádicas, mas não sistematicamente eliminado na base de milhões. Então, o meu ponto neste “mito” foi apenas desmontar a falácia de relacionar qualquer dificuldade econômica com o surgimento de um fenômeno como o nazismo. São coisas bem diferentes.

      drmoney, em 14 de março de 2015. Responder
  5. Ótimo artigo.
    Parabéns!

    Felipe, em 13 de março de 2015. Responder
  6. Simplesmente parabéns. Excelente texto e ponto de vista.
    Por favor, mantenha-nos informados sempre (e frequentemente) com seus textos.
    Parabéns pelo blog. Divulgo o máximo que posso; pena que a maioria dos brasileiros prefere a novela ou BBB.

    Obrigado,
    Bruno.

    Bruno, em 13 de março de 2015. Responder
  7. Muito Bom! Parabéns Dr. Money!

    Investidor Ingles, em 13 de março de 2015. Responder

Escreva um comentário