O fim do capitalismo?

Muito se tem falado, desde a eclosão da crise em 2008, sobre o fim do capitalismo tal como o conhecemos. A perplexidade vem crescendo com o tempo, e não diminuindo. Por exemplo, a colunista Suely Caldas, do Estadão, termina o seu artigo deste domingo com a pergunta torturante: “Estaria o capitalismo começando a viver a crise do socialismo dos anos 70/80?”. Uma visão quase apocalíptica, considerando-se o fim melancólico do sistema de produção socialista. O que dizer?

Em primeiro lugar, é preciso saber o que se entende por “capitalismo”. Uma definição simples é dada por Robert Hessen, na “The Concise Encyclopedia of Economics“: “‘Capitalismo’, termo pejorativo criado pelos socialistas em meados do século XIX, é um nome forçado para “individualismo econômico”, e que Adam Smith havia chamado antes de “o óbvio e simples sistema da liberdade natural”. A premissa básica do individualismo econômico é que a busca do interesse próprio e o direito à propriedade privada são moralmente defensáveis e legalmente legítimos. Seu maior corolário é que o Estado existe para proteger os direitos individuais”. O artigo é bem mais longo, mas por ora é o suficiente.

Então, o fim do capitalismo seria o fim de um sistema baseado na livre iniciativa e na propriedade privada. Claro que, nesse sentido, não há ninguém suficientemente louco (ou visionário) que defenda ser isso o que esteja acontecendo (se bem que alguns partidos de extrema esquerda acreditem piamente que isso um dia vai acontecer). O ponto é outro: qual deveria ser o grau de intervenção do Estado no sistema econômico? Quão “temperado” deveria ser o capitalismo? Para responder, precisamos fazer uma pequena digressão, começando pela crise de 2008.

A crise de 2008 foi o resultado de um sistema financeiro “paralelo” que cresceu fora dos controles da supervisão do Banco Central sobre o sistema bancário, aliado ao desejo ancestral do ser humano de consumir (no caso, consumo de imóveis). Depois que o sistema explodiu, e descobriu-se que os bancos estavam encalacrados até o pescoço com o negócio, os governos entraram com os seus balanços para salvar o sistema. A alternativa, preconizada pelo capitalismo puro, seria deixar os bancos quebrarem. Foi neste momento que o capitalismo piscou para o socialismo. Os governos levaram para os seus balanços o rombo do sistema. Não por outro motivo, as dívidas dos países aumentaram:

Note que este aumento da dívida não foi homogêneo. Alguns países se saíram melhor do que outros, pois não tiveram problemas bancários em suas terras. Mas esse gráfico não mostra tudo. Alguns países, de fato, tiveram suas dívidas aumentadas quase que exclusivamente em função do resgate ao sistema bancário. Foi o caso da Islândia e da Irlanda. Outros casos, no entanto, somente foram agravados pela crise. Grécia e Portugal estão nesse segundo grupo. Não houve propriamente um salvamento de bancos nesses países, mas sim a piora das condições de rolagem de suas dívidas já gigantescas. Era só uma questão de tempo para que isso acontecesse, e a crise só fez adiantar o processo. No meio do caminho, há países como EUA e Inglaterra, onde as contas já estavam desequilibradas, e a situação piorou com o salvamento dos seus sistemas bancários. Portanto, e para começar, não é verdade que o mundo capitalista esteja homogeneamente em crise. Há situações e situações, e cada país acabou colhendo o que plantou ao longo do tempo.

De qualquer forma, os efeitos da crise atingem, em maior ou menor grau, todos os países. Em uma economia global, o comércio e o sistema financeiro internacionais servem como correia de transmissão para a crise. E o efeito final é a falta de crescimento econômico. O crescimento econômico é como que o combustível de qualquer economia, seja ela capitalista ou socialista. Sem ele, todo o resto fica muito mais difícil. Veja no gráfico a seguir o efeito da crise de 2008 sobre o crescimento econômico de 2009:

Este efeito poderia ter sido bem pior, não houvesse ocorrido o salvamento do sistema bancário. Isso porque, sem o sistema bancário, praticamente toda a atividade econômica moderna pára, por ser baseada no crédito. O sistema bancário funciona como o coração do sistema. Com todo o respeito a todas as outras partes do corpo, igualmente dignas, é preciso salvar o coração à custa de qualquer outro órgão. Veja o gráfico a seguir:

Este gráfico mostra o crescimento do PIB norte-americano desde 1930. A linha azul é o crescimento real, ano a ano. A linha vermelha é o crescimento potencial, tomado aqui arbitrariamente em 3,5% ao ano, de maneira constante. Quando a linha azul está abaixo da linha vermelha, significa que o PIB está crescendo abaixo do potencial. Quando está acima, está crescendo acima. Note como a maior crise desde a Grande Depressão foi apenas uma sombra do que significou aquela para a economia americana (e certamente, por tabela, para a economia mundial). O PIB americano recuou 25% em poucos anos, algo inimaginável hoje. Mas note que a recuperação foi igualmente forte. E, no final, o crescimento estrutural de longo prazo foi retomado. A intervenção do Estado poderia ter evitado a recessão, mas certamente não aceleraria o passo do crescimento estrutural. Este depende de outros fatores, que abordarei em outro post. O que importa aqui é que, de fato, a entrada do governo em cena salvou o dia.

E agora? Estaríamos caminhando para o fim do capitalismo, com os governos tomando o lugar da iniciativa privada? Vejamos.

A grande perplexidade hoje é saber como conciliar dois objetivos aparentemente inconciliáveis: crescimento econômico com os ajustes necessários para a redução das dívidas. E por que são inconciliáveis (pelo menos aparentemente)? Porque, em tese, os governos poderiam estimular as economias de seus países com incentivos fiscais (em outras palavras, gastando mais), justamente em um momento em que os empresários estão ainda retraídos. A idéia central por trás dessa tese é o chamado “efeito multiplicador” dos gastos governamentais. Segundo essa tese (basicamente Keynesiana), o governo consegue gerar um crescimento acima de R$ 1 no PIB para cada R$ 1 de gastos. Robert Barro, um dos mais proeminentes economistas da atualidade, refuta esta tese aqui.

Além de ser disputável a tese de que gastos governamentais geram crescimento econômico (veja este outro post a respeito: Só a poupança real nos salva!), há provavelmente o problema inverso: excesso de dívidas acaba prejudicando o crescimento econômico de longo prazo. Neste outro post (Dívida boa é dívida baixa) eu comento o estudo de dois economistas do BIS – Bank of International Settlements, mostrando que para um aumento de 10 pontos percentuais na relação dívida/PIB, a partir de um nível de dívida de 80% do PIB, o crescimento econômico reduz-se em 0,15 pontos percentuais ao ano.

Assim, a decisão dos países desenvolvidos será, concorde-se ou não, equacionar as suas dívidas. Ocorre que, a exemplo dos efeitos da crise, as soluções também não são uniformes entre os países. A União Europeia, por exemplo, tem muito mais urgência em resolver o problema de suas dívidas. Por um motivo simples: a rolagem da dívida depende da boa vontade dos credores (esse perverso mercado…), que não estão dispostos a conceder mais tempo. Assim, já decidiram: vão fazer o ajuste. Veja a este respeito esta excelente coluna de Celso Ming (Keynes, agora ilegal). Já no caso dos EUA é diferente: por ter o poder de imprimir dólares, e por ter INSTITUIÇÕES  que funcionam da mesma forma há mais de 200 anos, contam com a boa vontade dos credores. Claro, tudo tem limite, mas parece que este limite ainda está longe para os norte-americanos. Portanto, eles têm mais tempo para equacionar o problema de suas dívidas. Mas não vão escapar.

Bem, chegamos a este ponto, e não respondemos à questão: o capitalismo vai acabar? Penso que, depois de todo o exposto, a resposta seja um rotundo não. Note que todos os fatos apontados e raciocínios feitos até aqui implicam na lógica capitalista: nenhum desses governos está pensando em ficar com os bancos que compraram na crise, ou criar estatais que substituam a função de empresas privadas. A direção é justamente a oposta: estão tratando de retirar o time de campo o quanto antes, diminuindo as suas próprias dívidas. Isso não signfica, por suposto, que não aumente a regulamentação do setor privado, principalmente do bancário. Isso faz parte do jogo, e será feito. O preço é um menor crescimento “artificial”, ou acima do potencial da economia no curto prazo, e, portanto, menores chances de surgirem bolhas. E esse talvez seja o grande dilema da classe política nesses países: regulamentar significa abrir mão de crescimento de curto prazo, o que poderia render (como rendeu, pelo menos até estourar a bolha) muitos votos. Por isso, os discursos são muito mais ferozes do que a prática.

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