Exportar commodities é pecado?

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Entre outros pecados, Roger Agnelli saiu da presidência da Vale aparentemente porque se recusava a investir em siderurgia, para assim exportar produtos de “maior valor agregado”, que parece ser o novo (novo?) mantra do governo. Neste caso, é de se perguntar porque não exigir da Vale que produza automóveis, para agregar ainda mais valor ao produto…
Brincadeiras à parte, há dois aspectos que gostaria de abordar nesta questão: um empresarial e outro conceitual.
O empresarial é mais fácil de entender: sobra capacidade produtiva de aço no mundo, e falta minério de ferro. Assim, qualquer empresário com um pouco (só um pouco) de diligência, procuraria investir mais em minério de ferro e menos em siderurgia. Não à toa, as nossas siderúrgicas estão investindo na exploração de minério de ferro… Exigir que a Vale faça o caminho inverso é pedir para jogar dinheiro pela janela.
O ponto conceitual é um pouco mais complicado: por que cargas d’água exportar commodities é necessariamente ruim? Somos um país abençoado por Deus, com quantidades industriais de tudo quanto é commodity. E agora, mais o pré-sal! Se não conseguimos usar todas essas commodities para a produção local de bens, por que não exportá-las e, com o dinheiro da exportação, investir em aumento da produtividade do país? Ou seria melhor deixar o minério enterrado no chão?
- Não Dr. Money, o melhor seria pegar esse minério e transformá-lo em algo com maior valor agregado. Teríamos mais lucros e mais empregos locais.
Sem dúvida, é o que todos queremos. Agora, pense um pouco: se é o que todos queremos, por que não fazemos? Talvez porque não consigamos fazer, não é mesmo? Estamos vendo a invasão de automóveis coreanos no Brasil. A Coréia era um país mais pobre que o Brasil há apenas três décadas. O que aconteceu por lá? Como eles conseguem pegar o minério do Brasil e devolver automóveis de alta tecnologia? São muitas as respostas: investimento brutal em capital humano, excelente ambiente de negócios, baixa carga tributária, etc. Enquanto aqui ficamos nos lamuriando pelo nível do câmbio, lá eles trabalham. Ninguém nos impede de desenvolver automóveis com o minério e o aço que produzimos (e, convenhamos, produzir aço não é muito melhor do que produzir minério). Nossos limites são dados pelas nossas escolhas.

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Comentários (01)

  1. A desgraça do Brasil é ser "abençoado".

    Roberto Pina Rizzo, em 23 de abril de 2011. Responder

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