Irresponsabilidade de quem?

Como nem mesmo um pacote de 110 bilhões consegue acalmá-los, presidente da Comissão Europeia fala em aprofundar regulamentação

06 de maio de 2010 | 0h 00

Jamil Chade, CORRESPONDENTE / GENEBRA – O Estado de S.Paulo

Regular a irresponsabilidade. Foi com essas palavras que o presidente da Comissão Europeia, José Manuel Barroso, ameaçou investidores de apresentar um novo pacote de leis para pôr fim ao que chama de “parque de diversões para especuladores”.

Diante da constatação de que nem mesmo um pacote de 110 bilhões consegue acalmar os mercados, Barroso disse que estuda apresentar um novo projeto de regulação.”Mercados livres são a base do funcionamento de uma economia que queira ter sucesso. Mas mercados livres precisam de regras e a punição ao não cumprimento dessas regras precisa ser mais dura. Comportamentos irresponsáveis põem em risco o que não se pode pôr em risco”, alertou Barroso.

Até sexta-feira, o pacote para a Grécia deve ser finalizado. Mas Barroso já prevê novas medidas. O presidente revelou que vai propor regulações para garantir que agências de classificação de riscos estejam de fato classificando os países de forma adequada. A nova lei promete pôr um limite nas ações da Standard & Poor”s, Moody”s e Fitch, exigindo que sejam transparentes na metodologia usada para classificar países.Deficiências. Barroso não hesitou ontem em atacar as “deficiências” dessas instituições e exigir que adotem novas fórmulas para avaliar países. Curiosamente, essas mesmas agências estão sendo acusadas por investidores de serem muito suaves com alguns países.

Bill Gross, diretor do maior administrador de títulos do mundo, a Pimco, revelou a seus investidores ontem, em um comunicado, seu descontentamento com as agências que não seguiram a S&P, que rebaixou a Espanha de AAA para AA. “Acreditem ou não, a Moody”s e a Fitch ainda classificam eles (espanhóis) como AAA. Eis um país com 20% de desemprego, déficit de 10%, que decretou default 12 vezes em 200 anos e cujo destino depende cada vez mais da bondade da UE e do FMI”, disse Gross.

Comento

Prefiro pensar que o Sr. Barroso esteja apenas jogando para a platéia. Seria muito preocupante se realmente acreditasse no que está dizendo. Não que as agências de classificação de risco sejam perfeitas. Longe disso. Mas a crítica mais normal é de que sejam lentas para reconhecer a deterioração ou a melhora de um crédito, como a que faz Bill Gross em relação à Espanha. O que o Sr. Barroso gostaria, talvez, é que aquele amontoado de discursos do presidente grego tocasse o coração do analista da Standard & Poors, e fizesse com que se reconhecesse a melhora da situação fiscal daquele país – mesmo sem ter melhorado um dracma (oops, euro).

É realmente curioso como a palavra “irresponsabilidade” muda de significado dependendo do interesse. No caso dos créditos hipotecários norte-americanos, as agências foram chamadas de irresponsáveis por terem concedido AAA a créditos podres. Agora, são chamadas de irresponsáveis por terem rebaixado a nota de alguns países, mesmo após juras de amor entre a União Europeia e a Grécia.

Lamento informar que a grande irresponsabilidade não é das agências de classificação de risco, ou dos investidores. A grande irresponsabilidade foi da Grécia (ou de Portugal, Espanha…) que se endividaram além da conta, e da União Europeia, que não exigiu, a tempo, o enquadramento dessas economias às regras do Euro.

O grande erro, nessa história toda, é achar que os compradores de bônus soberanos investem nesses títulos por altruísmo. Não, não é assim. Eles investem para ter o seu dinheiro de volta com alguma taxa de juros. E, quando desconfiam que o seu dinheiro está sob risco, ficam nervosos. Você não ficaria?


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