Moeda e Responsabilidade Fiscal

O Wall Street Journal publicou recentemente um interessante artigo sobre moedas paralelas ao Real que circulam no Brasil (In Pockets of Booming Brazil, a Mint Idea Gains Currency), artigo este que foi repercutido pelo blog Radar Econômico, para quem quer ler em português. Seriam 63 moedas ao todo até o momento, funcionando da seguinte maneira: a prefeitura retém um real para cada unidade da moeda emitida. Esta moeda teria livre circulação no comércio local, e pagamentos na moeda local seriam elegíveis a desconto. Seria um modo de reter o dinheiro da cidade circulando dentro da própria cidade, evitando compras no comércio de cidades vizinhas.

O que pensar?


Em princípio, trata-se de uma espécie de “cupom de desconto”. De posse da moeda, o consumidor tem direito a descontos no comércio local. Até aí, tudo bem. Alguns problemas podem, no entanto, levar esta experiência por água abaixo. Vejamos.

Um primeiro problema é a falsificação da moeda local. Se o Real, que é fabricado com altíssima tecnologia, já é falsificado, imagine uma moeda fabricada “caseiramente” na prefeitura local. Como a economia é pequena, mesmo uma pequena quantidade de moeda falsificada é suficiente para desorganizar o sistema.

Um segundo problema, mais grave, é a prefeitura usar os reais como fonte de financiamento de suas despesas. Se a moeda local tiver credibilidade, o povo não precisa trocar a moeda local por reais o tempo todo. Assim, os reais ficam lá na prefeitura, dando sopa. Por que não usá-los para fins nobres, como construir aquela ponte de que o município tanto necessita? Trata-se de financiamento a custo zero. Quando alguém cobrar alguns dos reais que não estão lá, a cidade toma um empréstimo e paga. Não é bacana?

É bacana, desde que a cidade não perca o controle de suas contas. Caso contrário, não conseguirá empréstimos para devolver os reais do povo. Neste caso, precisará mudar o câmbio de um-para-um, para poder devolver o dinheiro para todos. A isto damos o nome de inflação.

Qualquer semelhança não é mera coincidência.

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