O COPOM, a SELIC, e certos setores da sociedade

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Não gosto de fazer isso, mas vou precisar interromper a série sobre Política de Investimentos para comentar a decisão do COPOM de cortar a SELIC em 0,50%, para 12% ao ano. Foi uma decisão que chamou a atenção sob vários aspectos:

1) 100% dos analistas do mercado esperavam manutenção da taxa. O BC conseguiu surpreender realmente;
2) Foi a segunda vez na história do sistema de metas que o BC resolveu mudar de direção bruscamente; ou seja, decidiu derrubar a taxa na reunião seguinte à que havia decidido aumentá-la, ou vice-versa. A outra vez em que isso aconteceu foi em 05/03/99, quando o COPOM aumentou a SELIC de 25% para 45%. Na reunião anterior, em 19/01/99, a taxa havia sido diminuída de 29% para 25%. Lembremos que eram tempos bastante conturbados: o Real estava sob ataque, e o sistema de câmbio fixo havia sido abandonado em 15/01/99. Nada, absolutamente nada parecido com o que vivemos hoje.
3) A razão apontada para esse arrependimento foi a deterioração da conjuntura internacional, que faria o trabalho de abater a inflação. Além disso, o aumento anunciado do superávit primário também abriria espaço para uma política monetária mais frouxa.

Afinal, o BC acertou em derrubar já a SELIC? Vou iniciar minha análise comentando uma declaração do Secretário Geral da Presidência, Gilberto Carvalho: “Não há essa crítica quando o aumento da taxa de juros interessa a alguns setores da sociedade. Seguiremos agindo com responsabilidade“. Os “setores da sociedade” a que o ministro se refere é o mercado financeiro.

Penso que o ministro foi injusto. A sua fala, quando lida pelo avesso, significa mais ou menos o seguinte: “Quando ocorre redução dos juros, sempre há críticas por parte de alguns setores da sociedade”. Vejamos.

– No dia 19/06/03, o BC decidiu iniciar ciclo de redução de juros, com a SELIC indo de 26,50% para 26%. Manchete do Valor Econômico: Juro futuro para julho projeta corte de 0,75 ponto na taxa SELIC. Ou seja, o mercado esperava mais corte do que efetivamente veio.
– No dia 15/09/05, o BC iniciou outro ciclo de redução dos juros, diminuindo a SELIC de 19,75% para 19,50%. Reportagem do Valor Econômico: A decisão do COPOM não chegou a influenciar os negócios hoje, uma vez que demonstrou certo conservadorismo e ficou dentro do que o mercado esperava.
– No dia 22/01/09, o BC decidiu iniciar um ciclo de redução da SELIC, derrubando a taxa de 13,75% para 12,75%. Manchete do Valor Econômico: Analistas consideram decisão do Copom adequada, embora com riscos.

Veja o ministro então que, em todas as três ocasiões anteriores em que o BC iniciou um ciclo de corte de juros, não houve surpresa. O mercado não criticou. Tudo na mais perfeita ordem e harmonia. Por que então a gritaria dessa vez? Simples: o sistema de metas de inflação exige apenas uma coisa: que o BC utiliza a taxa de juros para trazer a inflação para a meta. Segundo a ata do último COPOM, a inflação não converge para a meta em 2012 (é bom lembrar que 2011 já era) com a atual taxa de juros. Portanto, esperava-se que, no mínimo, a taxa se mantivesse nestes patamares até que a inflação mostrasse algum sinal de convergência. É assim que funciona o sistema. Se não está do gosto, então vamos trocar por algum outro. Mas até trocar, é este sistema que está aí. O que o BC fez, na prática, foi desconsiderar o sistema de metas de inflação. Por isso a confusão em que se encontram todos agora.

O mercado tem o direito e o dever de criticar ou concordar com o BC. Afinal, é o financiador do governo. É quem empresta dinheiro para o governo gastar. E se, por algum motivo, o mercado desconfia que o rendimento dos títulos do governo será menor que a inflação futura, tem todo o direito de exigir taxas maiores. Se o governo não quer ficar refém do mercado, que pague a sua dívida. Mas não parece ser esse um plano imediato (e nem remoto) do governo.

A razão utilizada para derrubar a SELIC foi a ameaça de uma recessão global, que ainda não aconteceu. Se acontecer, ok, o mercado será o primeiro a reconhecer a necessidade de cortar a SELIC, como ocorreu nas três ocasiões citadas. Mas não aconteceu ainda. E se não acontecer, então teremos sérios problemas com a inflação mais à frente.

Há também a questão do anunciado ajuste fiscal com aumento do superávit primário, que ajudaria o BC em sua tarefa de reduzir as taxas de juros. Isso é verdade, se de fato acontecer. E se acontecer, seus efeitos são de longo prazo. No curto prazo (próximos 12 meses), o efeito desse ajuste é praticamente nulo. Ou seja, estamos dando estímulo monetário já, com a promessa de apertar o fiscal no futuro. Vai funcionar?

A inflação permanecerá alta, certamente acima de 4,5%, durante muito, muito tempo. Esta é uma realidade a que devemos nos adaptar de agora em diante. Cada um se proteja como puder.

E para terminar: para aqueles que, como Gilberto Carvalho, acreditam que “setores da sociedade” torcem por taxas de juros mais altas por esporte, sugiro que dêem uma olhada no que aconteceu com a bolsa hoje. O Ibovespa subiu 2,87% com o anúncio do corte da SELIC. Os bancos, por sua vez, tiveram o seguinte comportamento: Itaú: +6,83%; Bradesco: +7,38%; Banco do Brasil: +6,10%; Santander: +7,14%. Se juros mais baixos são tão ruins para certos “setores da sociedade”, porque afinal suas ações bombaram?

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Comentários (08)

  1. Prezado Dr. Money,

    primeiramente parabens pelo site. Sempre que posso passo aqui para ler. Já aprendi muito e refleti muito com seus artigos.

    Ha algumas semanas estava fazendo uma arrumaçāo em casa e enconrtrei esse post “O COPOM, a SELIC…” impresso.

    Reli e vi um comentario seu de 02 de setembro 2011 que dizia:

    “O que eu tenho a dizer é o seguinte: guarde este post, e releia-o em dezembro de 2013, quando o IPCA estará em dois dígitos, a menos que ocorra outra recessão mundial brutal, ou o BC mude de idéia até lá.”

    Curioso, fui checar o IPCA acumulado. Tudo bem que ainda nao estamos em dezembro, mas estamos proximos do final do ano.

    Pelo que vi nas colunas a direita da ultima pagina (pagina 21) do pdf do site do IBGE cujo link copio abaixo, o IPCA acumulado no ano está em 4,25% e o acumulado em 12 meses está em 5,58%.

    Para meu aprendizado, gostaria de saber sua opiniao sobre o que nos livrou do IPCA em dois digitos.

    Gostaria de saber se o Governo mudou de rumo e finalmente acertou alguma coisa, se foi alguma ajuda que tivemos de conjuntura externa, sorte… enfim, o que “deu certo”?

    obrigado e abs!

    antonio, em 16 de novembro de 2013. Responder
    • Caro Antônio, o BC mudou de ideia: elevou a SELIC em 3 pontos percentuais este ano. Se mantivesse em 7,25%, talvez não estivéssemos com IPCA em dois dígitos, mas certamente estaríamos caminhando para lá. Outro ponto importante é que, de fato, a economia mundial apresentou uma desaceleração importante a partir do segundo semestre de 2011, e só agora começa a se recuperar, ainda de maneira muito lenta.
      Abraço!

      drmoney, em 21 de novembro de 2013. Responder
  2. Sabe aquela situação em que fazemos algo porque mandaram e depois ficamos buscando explicação para justificar? Pois é… Pareceu um pouco isto esta redução de juros precipitada.

    Roberto Pina Rizzo, em 04 de setembro de 2011. Responder
  3. Anselmo, em primeiríssimo lugar, gostaria de esclarecer que o "Aviso aos Navegantes" não era, de forma alguma, enderaçada a comentaristas que, como você, indicam links de outros artigos para reforçar suas próprias opiniões. E, definitivamente, foi o que você fez em seu comentário. Na verdade, eu me dirigi a um outro, que mandou três artigos enormes na área de comentários, simplesmente copiando e colando, sem um mísero comentário adicional. Não foi um link, foi o próprio artigo. Ora, não vou ceder este espaço de opinião para artigos de outros. Então, para resumir, pode continuar mandando links de artigos que corroborem suas posições, faz parte.
    Sobre meu post em si: resolvi, para sair um pouco da mesmice, colocar a frase do ministro como pontapé inicial da minha opinião. Às vezes uso desses artifícios para chamar a atenção do leitor. E, nesse caso específico, foi mais do que isso: tenho uma diferença séria com esse tipo de postura do ministro. Tenho muitos amigos no mercado financeiro, gente honesta que ganha o seu pão tentando entender o BC e fazendo previsão de SELIC e inflação. É duro ouvir alguém dizer que há "interesses" por trás dessas previsões. Ou é desconhecimento de com funciona o mercado financeiro, ou é má-fé mesmo.
    Mas veja, Anselmo, apesar de eu ter começado com o ministro, expus minha opinião nos parágrafos seguintes, ainda que de maneira sucinta.. Mas você pode ver outras análises no blog: http://www.drmoney.com.br/2011/03/mercado-financeiro-o-belzebu-dos-tempos.html, http://www.drmoney.com.br/2011/03/expectativas-racionais.html, http://www.drmoney.com.br/2011/06/estamos-condenados-ter-uma-inflacao-sub.html.
    Por fim, você resumiu esplendidamente as falhas da decisão do COPOM no seu 2o comentário. Concordo em gênero, número e grau. Anselmo, seus comentários serão sempre bem-vindos.
    Abraço.

    Dr. Money, em 04 de setembro de 2011. Responder
  4. Aproveitando, já que comecei a comentar, aqui vai minha opinião:
    - O BC errou ao derrubar a taxa agora, pois deixou uma forte dúvida no mercado sobre a sua independência
    - errou pois ainda não é possível saber se o mundo irá realmente entrar em recessão
    - errou pois este governo deveria trabalhar sempre contra a inflação, pois ela é pior sobre os mais pobres, justamente a faixa da população que ele deveria mais defender

    Abraço

    Anselmo, em 03 de setembro de 2011. Responder
  5. Boa noite Dr. Money, obrigado pela resposta.

    Na verdade meu ponto realmente não era sobre concordar nem discordar do seu post, só achei que ao invés de aprofundar a discussão da queda você preferiu apoiar o texto em uma frase do secretário geral da presidência, o que me pareceu enfraquecer a discussão. Além disso, ao iniciar a leitura vi a afirmação que 100% dos analistas esperavam a manutenção da taxa, mas isso ia contra as noticias que eu vinham lendo na mídia dias antes da reunião do copom.

    Indiquei a série de textos pois eles sim me pareceram entrar mais a fundo na análise dos motivos da queda e as repercussões que dai surgiram, e me levaram a mudar opiniões que tive quando vi o anúncio inicial.

    De qualquer forma, vou seguir sua indicação no novo post e postar minhas opiniões, não indicar texto de outros. Mensagem entendida.

    Pra fechar, volto a elogiar seu blog, pois estou sempre aprendendo algo de novo por aqui, parabéns. Mas agora, ao ver que você responde aos comentários, estarei ainda mais por aqui, comentando sempre que possível.

    Abraço.

    Anselmo, em 03 de setembro de 2011. Responder
  6. Anselmo, obrigado por acompanhar o blog.

    Em primeiro lugar, parece-me que "superficial" não seja a palavra adequada para qualificar o post. Superficial seria se eu tivesse jogado idéias ao vento, sem um embasamento razoável e lógico. Acredito que todas as minhas afirmações foram devidamente embasadas. O que talvez você quisesse ter dito foi que o post incorre em erro, ou que simplesmente você não concorda com o seu teor (o que parece ser o caso).

    Com relação ao erro a que você se refere, relativo à unanimidade dos analistas, na verdade houve um falha de minha parte, pois não indiquei a fonte. A Bloomberg realiza uma pesquisa entre os analistas antes da divulgação das mais importantes variáveis macroeconômicos, e este é o caso da taxa SELIC. Pois bem, a pesquisa Bloomberg indicava 100% de unanimidade pela manutenção da taxa. O analista que trabalha para o banqueiro que ganhou dinheiro com a queda das taxas (conforme o artigo por você indicado) informou à Bloomberg que esperava manutenção das taxas. É preciso aqui fazer a distinção entre os analistas e os operadores. Entre estes havia divergência (eu mesmo achava que a taxa cairia, depois do anúncio do aumento do superávit primário), senão a curva de juros não estaria embutindo alguma probabilidade de queda. Mas não era isso o que aparecia na Bloomberg, e era a isso a que eu me referia.

    E por que 100% dos analistas informaram estar esperando estabilidade da SELIC? Por três motivos: 1) os analistas estavam como que diante de um homem a ponto de se jogar pela janela. Até o fim, não acreditaram que o fizesse; 2) os analistas estavam raciocinando no framework de metas de inflação. Como a inflação não está convergindo, a conclusão mais óbvia seria pelo aumento da taxa. Como o BC já havia avisado, na ata anterior, que o fim do ciclo estava próximo, optaram pela manutenção; 3) Os analistas estão treinados para ouvirem o BC, e mais ninguém, em matéria de política monetária. Por mais que houvesse sinais vindos de outras direções, somente quem acredita que o BC já não é dono da política monetária ouviria essas outras vozes. Como se vê, os analistas estavam enganados.

    Eu não tenho fontes, como o banqueiro ouvido por Vanessa Adachi no post por você recomendado. Tenho apenas a minha experiência de 20 anos no mercado financeiro e um mestrado em economia. O banqueiro diz que o estrangeiro vê inflação em 6% com taxa de juros reais em 3%. Ah, se o mundo fosse assim tão linear… Acontece que uma inflação em 6%, na média, exige uma banda maior, e o teto hoje é de 6,5%. O governo vai aceitar estourar a meta de maneira recorrente? Provavelmente não. Então, em algum momento (nesse cenário), o centro da meta será aumentado para 6%. E você terá apenas deslocado o centro da meta. E sem mudanças estruturais na economia, você precisará dos mesmos 6% de juros reais para manter a inflação no novo centro da meta. Aliás, com mais dificuldade do que atualmente, porque quanto mais alta a inflação, maior o processo de indexação da economia. O ponto principal é: a taxa de juros é uma variável endógena, ou seja, determinada pelas condições gerais da economia. Não é fruto da vontade do governante de plantão. O banqueiro cita a experiência da Turquia, que está com taxa de juros reais negativas. Desculpe-me, mas a Turquia é um péssimo exemplo, fora do mapa dos países considerados sérios em termos de políticas macroeconômicas. Por que o banqueiro não cita o Chile, ou mesmo o México, que já tiveram taxas tão elevadas quanto as brasileiras, mas fizeram a convergência fazendo a lição de casa?

    Bem, não é minha pretensão convencê-lo, Anselmo. Assim como você e o banqueiro da Vanessa, há uma legião de pessoas sérias que realmente acreditam que a taxa de juros está neste nível sem motivo algum, e é só começar a baixá-las para que elas fiquem baixas. O que eu tenho a dizer é o seguinte: guarde este post, e releia-o em dezembro de 2013, quando o IPCA estará em dois dígitos, a menos que ocorra outra recessão mundial brutal, ou o BC mude de idéia até lá.

    Dr. Money, em 02 de setembro de 2011. Responder
  7. Dr Money, gosto do seu blog e venho acompanhando a uns 3 meses, mas este post me pareceu muito superficial.

    Por exemplo:
    "1) 100% dos analistas do mercado esperavam manutenção da taxa." Várias matérias do dia 31 indicavam que o mercado estava na verdade dividido, como também indicavam os juros futuros. Veja essa, por exemplo: http://www.valor.com.br/valor-investe/casa-das-caldeiras/994152/selic-pode-cair-hoje-ou-nao

    Sugiro o conjunto de análises publicadas pelo Valor, que foram bem mais profundas: http://www.valor.com.br/valor-investe/casa-das-caldeiras

    Abraço

    Anselmo, em 02 de setembro de 2011. Responder

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