O custo da mão-de-obra e o futuro do Euro

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O Wall Street Journal traz um artigo bastante ilustrativo (Employment, Italian Style) sobre as origens dos desbalanceamentos dentro da zona do Euro. Segundo o artigo, um empresário italiano, ao contratar um funcionário, deve se preocupar com os seguintes itens (qualquer semelhança com o Brasil não é mera coincidência):

- A empresa deve pagar 2/3 do custo da seguridade social do empregado;

- Empresas com mais de 10 funcionários devem submeter às autoridades um relatório anual de auto-avaliação, descrevendo quaisquer riscos para a saúde e segurança dos empregados, incluindo stress causado por idade, diferença de gêneros e de raças;

- Empresas com mais de 15 funcionários devem dar guarida ao sindicato em suas instalações. Na medida em que a empresa cresce, aumenta o número de funcionários com direito a dedicar 8 horas mensais para o sindicato, remuneradas pela empresa. Estes funcionários devem ser consultados sobre os mais diversos assuntos, desde a igualdade de gêneros até inovação tecnológica;

- Empresas com mais de 50 funcionários devem ter pelo menos 7% de sua força de trabalho portador de algum tipo de deficiência, caso contrário deve pagar multas.

- Empresas com mais de 100 funcionários devem submeter, a cada dois anos, um relatório sobre a dinâmica da diferença de gêneros dentro da companhia, o que inclui uma tabulação do número de homens e mulheres empregados em cada unidade da empresa, detalhes sobre seus salários e níveis hierárquicos, datas e motivos para o recrutamento, promoções e transferências.

- Empresas com mais de 15 funcionários devem contribuir para o fundo de desemprego temporário. Para empresas dos ramos de varejo e turismo, esta obrigação começa com 50 funcionários.

Todas essas proteções e outras não citadas, incluindo a burocracia necessária para cumpri-las, subtraem quase 48% do salário médio do italiano. Dois terços deste valor vem antes do contra-cheque, de modo que o empregado não sente o quanto tudo isso custa.

- Mas Dr. Money, todas essas são medidas muito boas, que protegem os trabalhadores da exploração de seus empregadores…

Claro, claro. Todos somos a favor do bem e do belo, e contra o mal e o feio. Ocorre que, em economia, as consequências não intencionais insistem em aparecer. Note que as empresas, para fugirem dessas obrigações, têm três alternativas:

1) Fechar

2) Continuar pequenas

3) Contratar informalmente (estimativas indicam que 25% da economia italiana é informal)

Fosse a Itália uma ilha (economicamente falando), tudo se ajeitava dentro de suas fronteiras. Mas a Itália precisa competir com países bem mais eficientes. Para se ter uma ideia, o custo da mão-de-obra na Alemanha permaneceu praticamente constante desde 1997. Já o da Itália cresceu mais de 30%. Se a moeda fosse diferente, isso se resolveria com uma desvalorização real de 30% da Lira em relação ao Marco. Mas como o Euro é a moeda comum aos dois países, a única forma de resolver o problema é derrubar o custo da mão-de-obra na Itália. E este é um processo muito doloroso. (Nota à margem: neste mesmo período, o custo da mão-de-obra na França, Espanha e Grécia cresceu, respectivamente, 25%, 39% e 45%).

- Dr. Money, você é mais um que quer espetar a conta da crise nas costas dos trabalhadores, quando sabemos muito bem que se trata de pura e simples ganância do sistema financeiro!

A solução de um problema começa pelo seu diagnóstico correto. O problema tem sua origem no desequilíbrio macroeconômico, sendo os problemas do sistema financeiro apenas uma sua consequência. Não foi o sistema financeiro que criou o desequilíbrio entre os países da zona do Euro. O que está acontecendo neste momento é que faltam financiadores para continuar sustentando esses desequilíbrios. E, claro, sobram especuladores que sentem cheiro de sangue a quilômetros de distância, e se aproveitam desses desequilíbrios. Mas também não foram estes que criaram as distorções. Estas foram criadas por governos e parlamentos demagogos, que acreditam (ou querem fazer acreditar) que basta colocar uma lei no papel para que o dinheiro para financiar a nova obrigação brotará da Árvore da Vida. Feliz ou infelizmente, não é assim que o mundo funciona. Podemos nos revoltar contra a existência da lei da gravidade, mas mesmo assim devemos respeitá-la. O mesmo ocorre com as leis macroeconômicas, sendo a principal delas a de que uma economia não consegue permanentemente consumir mais do que produz. Para que a zona do Euro tenha futuro é necessário uma de duas coisas: ou bem a Alemanha repassa a sua produtividade para os países menos produtivos, via subsídios; ou os países menos produtivos tornam-se mais produtivos, diminuindo o custo de sua mão-de-obra e o peso do estado. Não há terceira via.

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Comentários (12)

  1. Caro drmoney, infelizmente não é tão branco como apresenta nem tão escuro como fazem transparecer!!!!
    Tem observações sobre a situação na Europa e dando o exemplo de Itália que é uma grande economia mas que tem por detrás imensas habilidades (ex. apresentam-se como grandes produtores de azeite e não o são ou no ramo e calçado, etc.) e ao dar este exemplo perde-se uma boa oportunidade ademais o tentar empurrar pela goela abaixo a ideia os custos e tramites nas relações empresa- sociedade – estado é o quase tentar comparar uma venda em FOB ou em EXW. Tem muitas observações que faz correctamente mas também se apresenta como o dono dos dogmas que regem o universo e algumas dificuldades em abrir a possibilidade e outros horizontes. E os accionistas e empresas tem de ganhar dinheiro mas no Brasil o normal é procurarem que seja acima de 200% e atiram com a desculpa do custo Brasil e demais tretas em vez e encararem quea realidade está na ganâcia, avareza intrinseca a vários estigmas.
    Cordialmente
    Elio

    Elio, em 31 de março de 2013. Responder
    • Elio, concordo que a realidade está na ganância e na avareza do ser humano. Este é um dado da realidade. Somos seres humanos, não anjos. A grande vantagem do capitalismo sobre outras formas de organização econômica é justamente utilizar este dado da realidade, e não ignorá-lo. O comunismo parte do pressuposto de que é possível construir um novo homem. E, na história, vimos como tentaram fazê-lo à força, em regimes totalitários. O capitalismo, por outro lado, considera que o ser humano é esta droga mesmo, ganancioso e avarento, e tira o máximo proveito disso para criar riqueza. Está longe de ser o sistema perfeito. Assim como o ser humano está longe de ser perfeito. Parodiando Churchill, o capitalismo é o pior sistema, com exceção de todos os outros.
      Abraço e obrigado por sua colaboração com o blog.

      drmoney, em 02 de abril de 2013. Responder
  2. Sou fã do blog.
    Gostei do texto. Porém não entendo por que a competitividade deve sempre ser buscada mediante cortes de custo na produção (leia-se, redução de direitos trabalhistas). Ora, por que não discutir a extensão de direitos trabalhistas mínimos aos chamados “países competitivos”? Qual a duração da jornada de trabalho na China? A quantos dias de férias tem direito o trabalhador japonês? Por que não aplicar sanções econômicas a esses países que desrespeitam as garantias mínimas do trabalho e torná-los menos competitivos? Posso estar sendo ingênuo, mas uma divisão mais racional da força de trabalho em termos globais, com respeito uniforme aos direitos do trabalhador, é algo que deve ser considerado com mais atenção.

    Marçal, em 20 de julho de 2012. Responder
    • Marçal, não se trata apenas de direitos trabalhistas. A questão é muito mais profunda do que isso. A produtividade do trabalhador norte-americano é 4 vezes maior que a do brasileiro. Ou seja, para cada unidade de PIB produzido pelo trabalhador brasileiro, o norte-americano produz 4 unidades. E não se pode dizer que o trabalhador dos EUA seja mal remunerado. O problema começa na educação, passa pela automatização e vai até os gargalos de infra-estrutura. Claro, há também a questão da flexibilidade do mercado de trabalho, mas este é um item, ainda que importante.
      Quanto à sua sugestão, os EUA seriam os primeiros a defenderem sanções econômicas contra a China (aliás, muitos nos EUA defendem isso). Por que não o fazem? Pense nisso.

      drmoney, em 21 de julho de 2012. Responder
      • Dr. Money,

        De fato, ser competitivo significa produzir de maneira mais eficiente. E a eficiência não está relacionada apenas com a questão trabalhista, como você bem ponderou. O ponto é que o peso desses outros fatores (educação, automação e infraestrutura) é bem maior quando se compara o Brasil aos Estados Unidos, porém, ao menos aparentemente, é muito menor entre os países europeus. Na Europa, creio que o fiel da balança da competitividade são os direitos sociais.

        Marçal, em 22 de julho de 2012. Responder
  3. Assim como o Brasil dos anos 80/90, a inflação já foi vítima da praga da hiperinflação, o que provavelmente explica a intolerância deles a esse monstro!!!

    Uma leitura interessante sobre o caso brasileiro é o livro da Míriam Leitão, A Saga Brasileira!

    Antonio, em 04 de julho de 2012. Responder
  4. Excelente explanação. O maior beneficiário do MCE é a Alemanha, que mesmo na crise ainda consegue ter vantagem sobre as demais economias da região. E o maior prejudicado com o fim do MCE com certeza também será a Alemanha, que perderá mercados hoje cativos para a sua indústria. A única solução seria a Alemanha abrir os cofres, mas aí existe uma certa miopia alemã com a responsabilidade fiscal. Este é o erro do MCE, juntar economias tão dispares, sem uma união tributária, fiscal, trabalhista, previdenciária… Digo graças a Deus que não fizemos o mesmo erro com a ALCA.

    Allan Ferreira, em 04 de julho de 2012. Responder
  5. Dr. Money,

    muito bom! De tudo que eu leio na Internet, o seu blog é, sem sombra de dúvidas alguma, aquele que retrata as situações da maneira mais Financista possível. Está de parabéns.

    Eu, particularmente, preferia que me dessem meu INSS e outros impostos pra que eu mesmo pudesse decidir o que fazer.

    Achei interessante a colocação do Pedro, seria legal fazer um apanhado com outros países.

    Conheço um alemão que comentou que o IR na Alemanha é alto (em torno de 50%). Mas cabe pesar os prós e contras de lá.

    []s!

    OBS.: por diversas vezes não consigo postar comentários aqui, ou qdo estou digitando o texto some depois de um Tab. Você bem poderia dar uma olhada melhor neste sistema de comentários. Fica aí uma sugestão.

    dimarcinho, em 03 de julho de 2012. Responder
  6. Parabéns drmoney, excelente artigo! As vezes me pergunto porquê as economias punem a expansão das empresas. Não seria mais interessante incentiva-las a crescer?

    Marco, em 02 de julho de 2012. Responder
  7. Olá,

    Parabéns pelo excelente blog.

    Sempre ouço falar sobre os problemas decorrentes do modelo de governo paternalista brasileiro, e agora vejo que não estamos sozinhos (bem, desconsiderando os demais na mesma situação que o Brasil).
    Você poderia fazer um post, se tiver essa informação, sobre como funciona a relação trabalhista em países como Estados Unidos ou Alemanha; os sindicatos, a previdência, férias, 13º salário e outras coisas como as citadas neste post.

    Abraço,

    Pedro Machado

    Pedro, em 30 de junho de 2012. Responder
  8. Há uma terceira via: a Alemanha ampliar os gastos públicos e subir os salários de sua economia.

    Kassia, em 29 de junho de 2012. Responder
    • Kassia, pode esperar sentada. A Alemanha não vai fazer isso, pois não tolera inflação.

      drmoney, em 29 de junho de 2012. Responder

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