O custo do bem-estar

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De vez em quando, roda pelos e-mails do mundo um filme sobre a suposta sabotagem da indústria do petróleo em relação ao carro elétrico. Quem tiver curiosidade, o vídeo é este aqui:

Como vocês sabem, não sou adepto de teorias da conspiração. Essa pareceu-me mais uma, mas não tinha até o momento a base para minha desconfiança, pois não sou especialista no assunto. Continuo não tendo, mas uma reportagem do jornal Valor Econômico (Eletricidade em carros exigiria cinco megausinas, aqui para assinantes) coloca de maneira interessante o problema dos carros elétricos: apesar do motor elétrico ser muito mais eficiente na utilização da energia, a eletricidade a ser gerada para alimentar toda a frota brasileira de carros particulares (sem contar ônibus e caminhões) requereria a construção de cinco usinas do tamanho da de Belo Monte. Se uma já está causando, imagine então 5 usinas…

Em economia, as coisas nem sempre são como parecem. Sem poluição sonora ou do ar, deslizando politicamente corretos pelas ruas, os carros elétricos parecem ser o passaporte para o paraíso. Obviamente, desde que se consiga a energia elétrica para movê-los. E aí está o problema: esta energia simplesmente não existe hoje, pelo menos não na escala necessária. Claro que se podem construir as cinco mega-usinas, mas o debate sobre o impacto ambiental transfere-se das cidades para as florestas.

O ponto incontornável dessa questão é: o ser humano sempre causará impacto ambiental, pelo simples fato de viver em civilização. A nossa grande capacidade de sobrevivência, e o nível de bem-estar alcançados, cobram o seu preço em termos de déficit ambiental. E olha que as populações das economias emergentes estão doidinhas para fechar o gap em relação às economias mais desenvolvidas. Resultado previsível: mais impacto ambiental.

Outro exemplo: depois do desastre de Fukushima, o governo japonês prometeu fechar as usinas nucleares para balanço. E, de fato, está fechando uma a uma. Como a energia nuclear responde por 30% da geração de energia do Japão, o país, agora, está resignado em ter uma mistura de falta de energia com energia mais poluidora produzida por termoelétricas. E olha que a energia nuclear é das mais limpas que existem! Claro, se não ocorrer um pouco provável vazamento… Moral da história: os japoneses terão que abrir mão de uma parcela de seu conforto para se verem livres do risco de um desastre nuclear.

Em resumo: o problema da sustentabilidade passa, necessariamente, por uma redução do nível de bem-estar da humanidade. É este nível de bem-estar, que cresceu dramaticamente depois da Revolução Industrial, que exige cada vez mais consumo de energia. E é a produção de energia que acaba com o meio-ambiente. A não ser que a humanidade abra voluntariamente mão de bem-estar, os debates sobre proteção ao meio-ambiente não passarão de palavrório. Até chegar o momento em que a natureza marcará a humanidade a mercado, e o bem-estar cairá à força. Mas acho que este dia ainda está longe. Ou não?

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Comentários (01)

  1. Façamos uma conta burra:

    Custo do pré-sal: ~270 bi

    Custo de cada Belo Monte: ~40 bi

    Só o pré-sal daria pra construir 6,75 Belo Montes

    Infelizmente nossa sociedade é atrasada.

    Explico: em nossa sociedade atual não fazemos nada do que deve ser feito. Fazemos o que dá lucro. E como na maioria das vezes o melhor ou o necessário não dá lucro, nós simplesmente não fazemos.

    Quem deveria evitar isso é o governo, mas como ele participa do jogo, continuaremos sendo uma sociedade atrasada.

    []s!

    dimarcinho, em 28 de março de 2012. Responder

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