O preço da gasolina e seus mistérios

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A gasolina foi finalmente reajustada! Para a alegria dos acionistas da Petrobrás, receberemos 6,6% a mais pela venda do combustível. Legal, né? Nem tanto. Observe este gráfico:

Ele mostra os preços da gasolina praticados nos Estados Unidos e no Brasil desde julho de 2001 (as fontes são a ANP para os preços brasileiros e a EIA (Energy Information Administration) para os preços norte-americanos). Trata-se dos preços médios praticados em todo o território nacional, e considerando todos os tipos de gasolina comercializados. Não se preocupe, já está tudo na mesma base, em reais por litro.

A linha azul é o preço da gasolina nos EUA, enquanto a linha vermelha é o preço no Brasil, ambos lidos no eixo da esquerda. As colunas verdes indicam a relação entre os dois preços, e deve ser lido no eixo da direita. Por exemplo, hoje o preço da gasolina no Brasil é quase 60% mais caro que o preço praticado nos EUA. Esta diferença já atingiu picos de 160%, e mínimas de 20%.

Algumas observações interessantes:

1. Note como o preço dos combustíveis nos EUA são livres, e oscilam de maneira até selvagem. Ok, há aqui também a influência do câmbio, já que o preço foi transformado em reais. Mas, de qualquer forma, temos um preço livre por lá. Isso acontece porque não há estatais de petróleo, e cada companhia pratica os preços de acordo com as leis de mercado. Os preços no mercado americano são, portanto, uma excelente proxy para o que seria o “preço justo” da gasolina no Brasil em cada momento, desconsiderando as diferenças de impostos. Fica, então, a pergunta: se os preços não são controlados, por que os nossos preços são tão mais altos? É o que veremos no item 2, a seguir.

2. O preço praticado no Brasil foi, na média dos últimos quase 12 anos, 70% mais alto que o mesmo preço nos EUA. Por que? Vejamos no gráfico a seguir:

 

As fontes para os dados acima estão no próprio site da Petrobrás e, para a gasolina norte-americana, aqui. Os preços são os praticados hoje no Brasil, e em janeiro de 2011 para os EUA. Apesar da diferença de dois anos, o preço do galão hoje é cerca de 10% maior do que era na época, o que não deve distorcer muito a comparação. Os números falam por si: tributos e a margem de distribuição são os grandes vilões. Os tributos são um velho conhecido, e não nos surpreende. No caso da margem de distribuição, há uma explicação: quem já foi a um posto de combustível nos EUA, sabe que precisa arregaçar as mangas e encher o próprio tanque de gasolina. Aqui, há os frentistas. O custo de operação de um posto no Brasil é maior, portanto, que nos EUA, o que deve responder em parte por essa diferença. E, claro, os impostos também pesam aqui.

3. Note que a diferença de preços de combustíveis tem ficado bem abaixo da média histórica de 70% desde o início de 2012. Isso aconteceu porque os preços do petróleo começaram a se recuperar e, principalmente, pela desvalorização do real. Note como o preço do combustível norte-americano atinge um novo patamar nesta época, medido em reais. Não coincidentemente, a Petrobrás começou a implorar pelo aumento do combustível mais ou menos nesse período. Só agora veio um aumento de 6,6%, o que claramente é insuficiente para recolocar o combustível no patamar anterior. Uma das três seguintes coisas deverá acontecer (ou uma combinação das três): i) mais um aumento de combustíveis; ii) valorização do real ou iii) a Petrobrás continuará a sangrar. Aparentemente, teremos uma combinação de ii) com iii).

Por algum motivo mítico, há uma espécie de fetiche com os preços dos combustíveis ao consumidor por parte de governos populistas. Tente colocar em ordem de importância: um prato de arroz com feijão, uma aula bem dada e um tanque cheio de combustível. Não tenho dúvida de que a maioria esmagadora das pessoas colocaria o tanque em último lugar. No entanto, os preços dos alimentos e das escolas obedecem às leis do mercado, enquanto os combustíveis são tabelados. Vai entender.

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Comentários (04)

  1. Interessante, mas porque a comparação é feita apenas a partir de 2001? Tem como fazer uma tabela dos últimos 20 anos? Grato!

    Eduardo Meneses, em 21 de setembro de 2014. Responder
    • Eduardo, infelizmente a ANP (fonte dos dados) não disponibiliza dados anteriores a 2001.

      Dr. Money, em 22 de setembro de 2014. Responder
  2. Por favor,

    Como consigo uma tabela comparativa dos preços da gasolina no Rio de Janeiro entre março de 2011 e março de 2013?

    Desde já, obrigado.

    Henrique Loureiro, em 07 de maio de 2013. Responder
  3. Muito bom! Me esclareceu muito…Precisando fazer um trabalho do meu curso de contabilidade justamente sobre o preço da gasolina.

    FRANCIENE, em 01 de abril de 2013. Responder

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