Parabéns FHC!

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Hoje, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso completa 80 anos. Não poderia deixar de prestar-lhe minha homenagem neste blog. Para os de minha geração, que nasceram e cresceram mergulhados em inflação, a estabilidade da moeda parece um sonho. Poder fazer planejamento financeiro de longo prazo, conhecer as regras do jogo e saber que não serão mudadas discricionariamente do dia para a noite, não precisar ficar preocupado porque deixou seu dinheiro fora de alguma aplicação financeira por um dia, poder diminuir o estoque de comida em casa… tudo isso foi possível graças ao Plano Real.

As tentativas de debelar a praga da inflação envolveram tentativas das mais esdrúxulas, desde congelamento de preços e salários por decreto até o confisco da poupança. Nada funcionou, mas foram importantes para o aprendizado. E a grande sacada do Plano Real não foi o seu mecanismo engenhoso, que levou a indexação às últimas consequências com a URV (Unidade Real de Valor), uma moeda indexada que todos (e não somente os mais ricos) podiam ter. A grande sacada foi o esforço posterior, de construir as condições políticas necessárias para mostrar a realidade das contas públicas. Todos os esqueletos foram, um a um, sendo tirados do armário, e mostrados para a sociedade. A inflação, antes de mais nada, escondia um Estado que não conseguia pagar as suas contas. Estatais ineficientes foram privatizadas, bancos estaduais quebrados foram vendidos ou federalizados. Apareceu, então, o verdadeiro tamanho da dívida pública brasileira, sem o disfarce da inflação. A moeda chamou-se Real não por outro motivo. A intenção de FHC era mostrar a realidade das coisas, de forma que a sociedade pudesse tomar consciência do tamanho do buraco em que estava metida. Coisa de estadista, que não tem medo de dar a má notícia, se for para o bem da sociedade.

Outras iniciativas igualmente relevantes se deram na construção de uma moeda confiável. O saneamento do sistema financeiro, com o PROER, foi um marco. Hoje vemos, depois da crise do sub-prime nos EUA e a atual crise na Europa, como é importante ter um sistema bancário forte, à prova de balas. O fim da inflação revelou, também neste campo, as fraquezas de um sistema formado por bancos sem capital, que sobreviviam às custas da mentira inflacionária. O PROER financiou a aquisição desses bancos por grupos capitalizados, que são a base da atual solidez do sistema. Não foi uma ajuda aos banqueiros, que saíram com uma mão na frente e outra atrás, mas ao sistema como um todo. E a um custo para a sociedade infinitamente inferior ao custo que os EUA tiveram para salvar o seu próprio sistema.

A Lei da Responsabilidade Fiscal também entra no rol daquelas que marcam uma virada na vida de uma nação. Responsabilizar criminalmente o gestor público que gasta mais do que arrecada não deve ter sido tarefa politicamente das mais fáceis. Mas FHC sabia da importância de uma lei deste tipo para a sustentabilidade da moeda no longo prazo. E usou sua maioria no Congresso para legar às futuras gerações mais um pilar importantíssimo para a estabilidade monetária.

Obviamente nem tudo são flores. No meio do caminho, alguns erros fundamentais foram cometidos, naturais em um processo de estabilização gigantesco como foi o caso do brasileiro. Por exemplo, a utilização do dólar como âncora do Real de 1995 a 1999, incorrendo em crescentes déficits em conta corrente e com um nível muito baixo de reservas internacionais, só podia dar no que deu. Mas, mesmo neste caso, a mudança se deu dentro da racionalidade, como tudo dentro do Plano Real: a substituição do dólar por um sistema de metas de inflação permitiu que os agentes se acomodassem naturalmente. Hoje, aquela desvalorização cambial faz parte da história, e não afeta mais a vida dos brasileiros. Basta comparar com o que aconteceu na Argentina, onde a âncora cambial foi abandonada dois anos depois, com um calote da dívida pública e consequências até hoje carregadas pelos cidadãos daquele país.

Outra lacuna, se é que podemos chamar assim, foi a falta de avanços mais sensíveis no campo das reformas estruturais. Neste campo, foram feitas privatizações importantes e foi feita uma reforma parcial da previdência. Faltaram as reformas tributária e trabalhista. Ok, 8 anos talvez não tenha sido um tempo suficiente, e estes são verdadeiros Trabalhos de Hércules, que deveriam ter sido encarados pelo seu sucessor. Teríamos hoje uma economia mais competitiva, com mais chances de vencer no cenário internacional.

O grande salto do Brasil nos anos 2000 foi possível graças ao gigantesco trabalho de estabilização realizado nos anos 90 por FHC. Conseguimos pegar carona na “virada” da economia chinesa, coisa que alguns dos nossos vizinho não conseguiram. Só para dar uma idéia, o PIB do Brasil cresceu cerca de 225% nos últimos 10 anos, enquanto o PIB da Argentina cresceu somente 30% (dados do FMI). Hoje, o PIB/capita do Brasil é 20% maior do que o da Argentina. Há 10 anos, era metade. As duas economias são exportadoras de commodities e poderiam ter se beneficiado igualmente do significativo aumento dos seus preços durante essa década. O Brasil se beneficiou muito mais, por ter um ambiente macroeconômico muito mais estável.

A inserção de uma massa de trabalhadores no mercado de consumo, a chamada “ascenção da classe média”, não foi obra do Bolsa Família (aliás, programa originalmente criado por FHC). Este fenômeno aconteceu pelo fim do imposto inflacionário cobrado dos mais pobres, que podiam, agora sim, ter a mesma moeda dos ricos. Também aconteceu pelo aumento da disponibilidade de crédito ao consumo de longo prazo, somente possível em um ambiente de estabilidade monetária. O progresso das pessoas, de um país, é fruto de instituições fortes, e não da dádiva do demiurgo de plantão. E não há instituição mais importante na vida econômica das pessoas do que a moeda de um país. FHC tinha clara conscência disso. Foi lá e fez.

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Comentários (02)

  1. Maravilhoso sumário do que foi feito por esse grande homem no país. Enquanto lia seu post pensava que nesses anos de governo de oposição o que tivemos foi apenas "colheita dos dividendos", dos frutos do grande trabalho de FHC; de resto, só notícias ruins, corrupção, sujeira jogada para debaixo do tapete, inflação querendo dar as caras novamente…

    Anonymous, em 02 de julho de 2011. Responder
  2. Apoiado!
    Lamentável aqueles que cospem no prato feito que receberam de FHC.

    Roberto Pina Rizzo, em 18 de junho de 2011. Responder

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