Qual a verdadeira meta para a inflação?

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A inflação acumulada nos últimos 12 meses foi inferior a 5% (4,99% para ser mais exato). Em setembro do ano passado, a mesma inflação acumulada havia atingido 7,31%. Bem distante, portanto, da meta de 4,5%. Na ocasião, o Banco Central havia começado a cortar a taxa SELIC de maneira surpreendente (na reunião do COPOM de 31/08/2011, o BC cortou a taxa básica de 12,50% para 12,00%), gerando muitas críticas de analistas financeiros. Eu mesmo fui um dos que criticou acidamente a decisão (O COPOM, a SELIC e certos setores da sociedade; O sistema de metas de inflação e a galinha dos ovos de ouro; Inflação: comece a se preocupar).

Que a inflação acumulada em 12 meses iria começar a cair, ninguém tinha muita dúvida. O choque dos preços das commodities agrícolas no final de 2010 e início de 2011 fez com que a inflação subisse bem acima da meta. Uma vez ficando este período de fora da série de 12 meses, a inflação acumulada deveria ser bem menor. O que não estava na conta da maioria dos analistas é que chegaríamos na metade de 2012 com as expectativas para a inflação futura (2013) ainda dentro da banda de flutuação da meta (no caso, 5,5%). Ou seja, o BC cortou a SELIC até 8,0%, vai continuar cortando, ao que tudo indica, até pelo menos 7,5%, e as expectativas do mercado permanecem bem comportadas. Para quem, como eu, imaginava uma inflação de 2 dígitos em 2014, trata-se de uma surpresa e tanto.

Não vou aqui entrar no mérito de porque a inflação, por enquanto, não subiu. Certamente é função da atividade global bem mais fraca, e do risco de dissolução da zona do Euro, o que levou a um crescimento doméstico pífio (este ano vamos crescer menos que em 2011!). O meu ponto é outro: dada esta fraqueza da atividade doméstica, não seria o caso de termos uma inflação abaixo da meta? Afinal, é assim que o sistema de metas de inflação deveria funcionar: quando a atividade econômica está mais forte, a inflação fica acima da meta; quando está fraca, fica abaixo. Na média, fica na meta. Veja o gráfico a seguir:

Note como a inflação acumulada em 12 meses, desde que a meta foi estabelecida em 4,5%, ficou abaixo da meta apenas entre maio de 2006 e dezembro de 2007. Desde então, já lá se vão 4 anos e meio em que a inflação fica acima da meta. E olha que, neste meio tempo, passamos por uma recessão em 2009, ano em que a inflação acumulada ficou praticamente na meta (4,31%).

O que acontece aqui? Claramente o Banco Central tem um viés de alta para a inflação: tolera uma inflação mais alta, mas não tolera uma inflação mais baixa. A escolha foi ter uma inflação mais alta em troca de juros nominais mais baixos no curto prazo. A banda de flutuação ficou mais estreita. Aparentemente, a meta real não é 4,5%, mas 5,5%, com uma banda de mais ou menos 1%. Não à toa, a inflação média no Brasil nos últimos 5 anos foi de 5,4%. O risco dessa estratégia é de que, em uma retomada mais forte da atividade econômica, a inflação possa facilmente ultrapassar o teto da banda, 6,5%. Para que isso não aconteça, o BC deveria aumentar a taxa SELIC, talvez de maneira relevante, quando a economia desse mostras de recuperação. Fará isso, se necessário for? Não tenho essa resposta, e não gostaria de focar neste ponto.

Meu ponto é outro: uma inflação de 5,5% é razoável? Alguns acham que sim. Eu acho que não. Vejamos como a nossa inflação compara-se com a de outros países:

(Nota: a inflação da Argentina é a “oficial”. Institutos de pesquisa independente apontam inflação anual na faixa de 20%).

Não parece ruim, mas é! Comparando-se com outros países “normais” da América Latina, como México e Chile, nossa inflação foi, na média dos últimos 5 anos, um ponto percentual acima ao ano. Uma inflação civilizada, aceitável nas economias desenvolvidas, é de 2% ao ano. Neste patamar, os preços dobram a cada 35 anos. Com uma inflação de 4,5%, os preços dobram a cada 16 anos. A 5,5%, os preços dobram a cada 13 anos. A diferença não parece grande, mas o ponto é outro. É muito difícil baixar a inflação de 4,5% para 2%, e muito mais difícil baixar de 5,5% para 2%. Precisaríamos estar nos aproximando de uma inflação mais aceitável, e não nos afastando. Este é o ponto.

– Pô Dr. Money, tudo isso parece uma tempestade em copo d’água!

É verdade. A linha divisória entre uma inflação civilizada e uma selvagem, que desorganiza a economia, é muito tênue. Um ponto a mais sempre parecerá pouco. Já nos acostumamos com 5,5%, para nos acostumarmos com 6,5% é muito fácil. E assim por diante. De ponto em ponto, o dragão da inflação enche o papo, e nos podemos nos ver às voltas com um processo fora do controle, como hoje se vê em países como Argentina e Venezuela.

Há que se dar um voto de confiança ao Banco Central, que por enquanto tem entregado a inflação na meta, ainda que com viés de alta, como vimos acima. Mas não há como negar que estamos trabalhando no limite da responsabilidade, e qualquer movimento em falso pode colocar a perder anos de luta contra a inflação.

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Comentários (12)

  1. Temos pontos de vistas distintos, e acredito que isto gera uma soma, não confrontamento. Vejo os fatos de uma maneira mais histórica que de atualidade. Vejo na sua visão um inverso, mas a atualidade, e menos o histórico. A grande questão aqui é que a década de 80 e 90 foram perdidas. E neste período também se perdeu a competitividade do incipiente parque industrial. Concordo, que os investimentos em infraestrutura, educação, e no aumento da eficiência do Estado e da burocracia são fatos indiscutíveis para aumento da produtividade. Porém coloco como contrapontos:
    1) O fato de um país ter iniciado sua revolução industrial tardiamente, em um mercado de livre competição, significa uma condenação perpétua para o subdesenvolvimento, e para um déficit em balança comercial, a não ser que se adote alguma política protecionista. (Veja a China por exemplo)
    2) As regras do jogo não são democráticas. O FMI constituído para monitorar as relações comerciais entre os países capitalistas nas condições do mundo pós-guerra não representa uma nação – um voto. O Brasil por exemplo tem apenas 1,4% de voto, menos que a Bélgica.
    3) Sabemos a causa da crise do petróleo, mas ninguém pode imaginar qualquer determinação restritiva externa para os Estados Unidos por haver declarado o dólar inconversível no começo dos anos 70, ou por excesso de endividamento.
    4) Dentro das meias verdades apregoadas pelo FMI está a flutuação do câmbio, segundo o qual o valor de uma moeda é capaz de se estabelecer com relação ao de outras moedas, baseado no fluxo em conta corrente das mesmas. Porém não participa desta equação os especuladores, nem a armadilha da liquidez.
    5) Armadilha da liquidez – é o que FED e BCE vem fazendo agora, inundando o mercado com dólares e euros. Esta história já é antiga, e foi a responsável pela dívida externa da América Latina. Na década de 70, devido a recessão, os EUA inundaram o mundo com dinheiro fácil, que foi usado na industrialização do Brasil. E para pagar esta dívida entregamos estatais como a Vale, Telebrás, Embraer e outras, da mesma forma que se entrega um carro com parcelas atrasadas, e sem conseguir sequer quitar a dívida, um episódio que na América Latina ficou conhecido como Briberization (conforme enfatizou Joseph Stiglitz). Como agora os países latinos americanos não querem mais empréstimos, apesar dos juros baratos, este dinheiro entra nos mesmos (sob o cunho de ser moeda “forte”), onde adquirem as riquezas(fazendas, indústrias, fábricas), que posteriormente alimentarão as remessas de dividendos (para os conglomerados bancários), mantendo este déficit em conta. A pergunta é, este dinheiro vale realmente o que vale? Tem todo este poder de compra? Porque se o FED e o BCE rodam a maquina de produção de moeda, há de se concordar que esta perde o valor.
    6) Este processo de desequilíbrio monetário seria corrigido se o FMI adotasse uma moeda internacional com lastro real, e não eurodólares. Porém lembre-se que o FMI não é democrático, e esta decisão afetaria os seus principais sócios negativamente.
    7)Concordo que devemos pagar nossas dívidas, o problema é pagar a nossa e a dos outros. E foi isto que a América Latina fez, pois as decisões que levaram ao aumento de juros foi causada por atos unilaterais dos EUA, em uma época que todos aceitavam os desmandos norte-americanos (vivenciávamos a guerra fria).
    8) O que me preocupa agora é que tal política tem fortalecido apenas os agentes bancários, acompanhado de um enfraquecimento das nações (exceto a China). Isto é ruim para o equilíbrio mundial. Não é de espantar que idéias facistas, neonazistas e ultra-direitistas com forte teor nacionalista estejam proliferando no mundo. Até porque na cabeça dos cidadãos comuns os conglomerados econômicos não poderiam sem maiores que o Estado. Até porque o sistema bancário surgiu como uma concessão do Estado, e não o contrário.

    Allan,,,Ferreira, em 03 de agosto de 2012. Responder
    • Allan, vejo que você tem como ideia base do nosso subdesenvolvimento o fato de que os outros são culpados. A minha ideia base é de que os países colhem o que eles mesmos plantam. Ninguém é realmente obrigado a se endividar, assim como nenhum país é obrigado a ter conta corrente negativa. A conta corrente é negativa simplesmente porque não se consegue viver dentro de suas possibilidades. Hoje consome-se mais do que se produz, e a poupança acumulada não é suficiente para cobrir a diferença. Culpar o FMI, os bancos, o imperialismo americano pelas nossas agruras é o caminho certo para o descaminho. Basta ver a situação econômica de países como Venezuela e Argentina. O que ganharam em demonizar o capital e tudo a ele relacionado? E, por outro lado, países como Chile e Colômbia avançam. Basta ter olhos para ver.
      PS.: nós não “entregamos” as estatais. Nós as vendemos, o que é bem diferente. E vendemos não só porque precisássemos do dinheiro. Vendemos para tornar a economia mais eficiente. Ou você acha que estaríamos melhor com a Telesp hoje?

      drmoney, em 03 de agosto de 2012. Responder
      • Por favor, dizer que o Chile avança é uma meia verdade, que esconde uma importante mentira. A economia chilena foi impulsionada mais em parte pelo aumento do valor de suas commodities de exportação, e principalmente pela aplicação do princípio da divisão social dos 3 terços: 1/3 de muito ricos, 1/3 de parcialmente incluídos e 1/3 de excluídos sociais. Basta ver que no período de crescimento chileno, o índice GINI não sofreu queda, mostrando que o crescimento se fez na base da concentração de renda. E foi contra este Aparthaid social que ocorreram várias greves de estudantes no chile, em especial ao que tange a educação, que aplicou os mesmos princípio de escolas particulares de qualidade, escolas subsidiadas de qualidade inferior, e escolas públicas ruins.

        ALLAN RC FERREIRA, em 08 de agosto de 2012. Responder
        • Allan, em nenhum momento foi dito que o Chile já atingiu a perfeição da arte. Há muitas mazelas, como em todos os países da América Latina. Mas é inegável que a sua economia tem sido um exemplo de crescimento com estabilidade, e aponta um futuro melhor do que hoje podem almejar, por exemplo, países como Venezuela e Argentina, que insistem em políticas populistas irresponsáveis. Este seu discurso sobre luta de classes é muito bom como discurso, mas inútil no momento de resolver problemas concretos.

          drmoney, em 09 de agosto de 2012. Responder
  2. Grande Dr,;

    O brasileiro não tem mais margem para assumir dívidas, por isto do crescimento baixo, aquém do planejado pelo governo. Já compramos carros e eletrodomésticos com IPI baixo outro dia, está mesma medida paliativa tem pouco efeito agora e, se usada novamente num futuro breve, terá pouquíssimo efeito. As reformas (fiscal, tributária, trabalhista) que já cansamos de ressaltar são necessárias.

    Um crescimento sustentável não acontecesse com incentivo ao comércio, a industria precisa crescer em igual velocidade. #fato.

    Como você alertou no texto nossa balança tem mostrado grande importação e menor exportação, algo ruim é claro. Temos consumido tecnologia.

    Precisamos melhorar nossa competitividade, ao invés de manter tantas reservas poderíamos usa-las para sermos mais competitivos e assim menos dependentes das flutuações do dólar.

    Abraço!

    Jônatas R. Silva, em 27 de julho de 2012. Responder
    • Jônatas, assino embaixo. Abraço!

      drmoney, em 27 de julho de 2012. Responder
  3. Interessante você considerar que sua análise foi ruim com relação ao corte dos juros, e que aparentemente o BC acertou. É engraçado também observar que mesmo com o afrouxamento do crédito, as pessoas não estão consumindo. Isto me lembra um pouco os princípios de Daniel Kahneman e Vernon Smith sobre a psicoeconomia, ou economia psicológica. Os brasileiros estão simplesmente travados por acreditarem que a crise econômica mundial irá tragar o Brasil. Mesmo sabendo que os indicadores macroeconômicos dizem o contrário (taxa de juros reais baixas, % dívida pública/PIB baixo, desemprego baixo, renda média do trabalhador elevada, reservas cambiais elevadas…).
    E na crise atual, não é Keynes ou Malthus ou Marx que definem. Porque a crise é de confiança no sistema. E confiança é algo subjetivo. A Alemanha confiou em Hitler cegamente. Não precisamos discutir os resultados. Por outro lado, o povo americano não confia mais na estrutura econômica do seu país… Quando eu acho que deveria confiar. Cruel, mas é a realidade

    Allan Coutinho Ferreira, em 26 de julho de 2012. Responder
    • O BC não acertou. Teria acertado se, com o atual crescimento pífio da economia, a inflação estivesse em 3%, no piso da banda, e não em 5%, acima da meta. O que me surpreendeu foi esta desaceleração da economia, o que deveria forçar a inflação para baixo da meta, o que não ocorreu.
      Com relação ao consumo, as pessoas estão consumindo sim, basta ver os indicadores de vendas no varejo e a inflação de serviços. Tanto é assim, que as nossas contas correntes continuam bem negativas, pois a importação de bens substitui a industria local, esta sim bastante fraca.
      Abraço e obrigado por sua contribuição.

      drmoney, em 26 de julho de 2012. Responder
      • Eu que agradeço pelas informações fornecidas, e pelo excelente site. Concordo que a nossa indústria está muito fraca. Entendo que sem um câmbio mais desvalorizado a indústria não terá fôlego. (O governo nunca acertou o câmbio desde o início do real). Sabemos porém que o valor atual do câmbio foi pressionado pela assimetria causada pela agricultura e extrativismo mineral, que é milhões de vezes mais eficiente que a indústria brasileira, associado a enxurrada de dólares e euros emitidos pelas nações ricas.
        Com relação a balança de pagamentos vejo nosso déficit muito mais empurrado pelo envio de dividendos e lucros das empresas para o exterior, investimento brasileiro no exterior, e pela demanda reprimida de brasileiros que querem fazer turismo. O primeiro está sendo liquidado pelo IED (investimento estrangeiro direto), o segundo retornará como dividendo as empresas brasileiras, e o terceiro pela desvalorização do real Em termos de % do PIB o déficit em conta corrente é muito menor do que ocorreu na década de 80-90, onde a maior parte dele era para pagamento de juros da dívida externa. Já a indústria continuará sendo um calcanhar de aquiles, se não baratearmos os custos com menos impostos, mais infraestrutura, energia barata…

        Allan Ferreira, em 27 de julho de 2012. Responder
        • Allan, o déficit em conta corrente é sempre gerado, em última análise, por uma deficiência de poupança interna, o que gera a necessidade de poupança externa. Assim, o excesso de consumo ou investimento interno em relação ao nível da poupança doméstica é que gera o déficit de contas correntes. O envio de dividendos nada mais é do que o pagamento dos “juros” devidos pelo IED do passado. O IED do presente, que está financiando o déficit, gerará mais déficit no futuro, pelo envio de mais dividendos. O consumo dos turistas é uma forma de compra de importados: ao invés de viajar no Brasil, o indivíduo prefere ir ao exterior, pois percebe um custo/benefício melhor. Neste caso, a indústria local do turismo é tão ineficiente quanto as outras industrias. Por fim, o investimento brasileiro no exterior não entra como déficit de contas correntes, entra na conta financeira.
          Agora, concordo plenamente com você que o problema da indústria são os impostos, a infraestrutura, a energia. Enfim, os gargalos estruturais. O câmbio é uma variável endógena, e o seu valor no longo prazo não pode ser determinado pelo governo de maneira permanente.

          drmoney, em 27 de julho de 2012. Responder
          • Vejamos então: um país hipotético A sofre problemas por ser pouco industrializado. Pega empréstimos a juros baixos na década de 60 para financiar a industrialização e se tornar competitivo. Na década de 70 estes juros unilateralmente quadruplicam e o país que estava alcançando um grau de industrialização e competitividade se vê deficitário em conta corrente devido ao pagamento de juros da dívida. Depois de longos anos o país consegue manter uma indústria em parte devido a moeda desvalorizada e a inflação. Na década de 90 este país aplica as diretrizes do consenso de Washington (privatização + abertura de mercados + pagamento da dívida + paridade cambial), acompanhado da troca da dívida externa por uma dívida interna. Permite a entrada de importados, porém não investe em infraestrutura, pois gasta 1/3 do que arrecada com pagamento de juros. Desta forma não pode desonerar a indústria (cobra impostos demais) e não investe em infraestrutura (hidrelétricas, termelétricas, estradas, ferrovias, logística, formação de pessoal). Só que agora que começa a sobrar algum dinheiro para investir, o grau de sucateamento desta indústria exige que seja tomado medidas “protecionistas” (para aversão dos liberais). E em tempos de OMC, a melhor medida “protecionista” é o câmbio. Que desde o consenso de Washington sempre foi supervalorizado. E agora o país A precisa urgentemente desvalorizar seu câmbio. Mas não o faz pois não pode mexer no câmbio flutuante. E assim a conta corrente segue negativa. Ainda não entendo, se alguém puder me esclareça: qual o pudor, desde o início do plano real, de se trabalhar com um câmbio competitivo? (Antes de me crucificar, China, Coréia e outros países o fazem).

            Allan,Ferreira, em 01 de agosto de 2012.
          • Allan, acho que você tem honestidade intelectual, o que é uma virtude rara nos dias que correm. Portanto, vou investir um tempo para tentar responder às suas questões, pois acho que você realmente quer debater, e não apenas fazer proselitismo ideológico. Vamos lá:
            1) A taxa de juros é o preço do dinheiro. E quem empresta o dinheiro tem o direito de estabelecer o seu valor. Ninguém obrigou o país a fazer dívidas. Se as fez, foi por livre decisão. Culpar o credor pela dívida não costuma resolver o problema.
            1a) A dívida poderia ter sido contraída em taxas prefixadas. Não foi, e não tenho conhecimento para saber o porquê. Como as taxas foram pós-fixadas, quando as taxas subiram, nós (e outros emergentes) quebramos.
            1b) As taxas subiram não porque os credores foram maus. Subiram para combater uma inflação de 2 dígitos, decorrente do 2o choque do petróleo, em 1979. As grandes crises da dívida ocorreram na década de 80 (não 70), com o México pedindo moratória em 1982 e o Brasil em 1987.

            2) A indústria se mantém APESAR da inflação, e não POR CAUSA da inflação. A inflação desorganiza a economia, e não há indústria que prospere nesse ambiente.

            3) A dívida não deve ser paga por uma determinação do Consenso de Washington. A dívida deve ser paga porque trata-se de um compromisso. Eu sou meio careta, acho que compromissos devem ser cumpridos. Coisa de velho.
            3a) Se o país gasta 1/3 do que arrecada para pagar juros, o problema está no tamanho da dívida. Novamente: culpar o credor pela dívida não resolve o problema. Lembre-se que o tamanho dos juros é determinado pelo credor, não pelo devedor. O BC pode até determinar que a taxa do redesconto (a SELIC) é de 1%. Se os credores acharem que esta taxa não cobre o risco de calote, não continuarão a comprar títulos do governo. Basta ver o que está acontecendo com Espanha e Itália: a taxa do redesconto é 0,75% na Europa, mas os credores estão pedindo acima de 6% ao ano para financiar a dívida desses países.

            4) Este é o ponto mais importante: o câmbio é uma variável endógena. Ou seja, ela é o resultado de outras variáveis. Existe um troço na literatura econômica chamado “Trindade Impossível”. Reza este postulado que é impossível ter, ao mesmo tempo, câmbio fixo, política monetária autônoma e livre fluxo de capitais. Você precisa abrir mão de uma dessas variáveis. No caso da China, o fluxo de capitais é controlado. No caso do Brasil, o câmbio é livre. Para fixar o câmbio, seria necessário abrir mão ou da política monetária autônoma ou do livre fluxo de capitais. Aliás, na prática, o Brasil hoje está trocando câmbio flutuante por controle de capitais. Mas isso só é possível, para manter o câmbio desvalorizado, se você for capaz de acumular reservas ad infinitum (ou estabelecer regras que tornam o mercado de câmbio disfuncional). A China consegue, o Brasil precisa pagar um custo muito alto para fazer isso. Uma parte importante da dívida interna (cerca de 20%) é fruto da política de desvalorização do câmbio.
            4a) Portanto, não é que não se possa mexer no câmbio. É que esta é uma política contra-producente e não sustentável no tempo. Trata-se de um arremedo, que não soluciona o grande problema da falta de competitividade da economia, que é fruto de um Estado ineficiente, que come mais de um terço da riqueza do país, grande parte gasto para manutenção da máquina. Pode ser uma solução de curto prazo, mas nunca será A solução definitiva.
            4b) A China não é só câmbio. A China é ditadura, baixos salários, investimento intensivo em educação, 50% do PIB em poupança. O câmbio, por si só, não faz milagre. Idem para a Coréia.

            Allan, é preciso uma estratégia abrangente de desenvolvimento, que envolve investimentos sérios em educação (meritocracia, e não formação ideológica nas escolas), reformas microeconômicas que diminuam de maneira significativa a burocracia, simplificação do sistema de impostos, desenvolvimento do mercado de capitais que permita a entrada de recursos para o financiamento de infraestrutura. O câmbio é uma falsa questão. Desvalorize o câmbio hoje para R$ 3. Haverá um alívio imediato na conta corrente que não se sustentará, pois a verdadeira lição de casa não foi feita.
            Abraço!

            drmoney, em 02 de agosto de 2012.

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