Quebrando o termômetro

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Hoje o Estadão publica reportagem (aqui) dando conta de que o BC pretende mudar a forma de como faz a pesquisa Focus. Para quem está por fora, a pesquisa Focus é realizada semanalmente principalmente junto a instituições financeiras, e contém projeções para algumas variáveis macroeconômicas, como inflação, crescimento do PIB e contas externas. Para quem nunca viu, segue o link da última pesquisa (aqui).

Segundo a reportagem, o BC estaria preocupado com o viés dos analistas ligados a instituições financeiras, que teriam a tendência de superestimar a inflação futura para forçar o BC a aumentar a taxa de juros e, assim, engordar os lucros dos bancos. Literalmente, “a preocupação com o formato da Focus aumentou diante do fato de que nas últimas 12 semanas houve alta ininterrupta na estimativa para o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA)”. Pois é. Mais um caso em que governos se preocupam mais com o termômetro do que com a febre. Mas, vamos por partes.
Em primeiro lugar, há um motivo básico para que haja principalmente instituições financeiras participando da pesquisa Focus: a estimativa da inflação futura é matéria-prima básica para os bancos e administradores de recursos de terceiros, pois estas instituições vivem de tentar adivinhar a taxa de juros no futuro. Por isso, as instituições financeiras contam com departamentos de economia sofisticados, com modelos de projeção de inflação. Seria um desperdício de recursos, por exemplo, que uma indústria de fabricação de móveis contratasse um economista exclusivamente para projetar a inflação no futuro. Não por outro motivo, a indústria e o comércio, quando querem uma estimativa para a inflação futura consultam… os seus bancos! A reportagem fala em agregar estimativas do mundo acadêmico e institutos de pesquisa. Ok, se os acadêmicos possuírem modelos minimamente consistentes de previsão de inflação. Senão, sugiro pesquisar junto a cartomantes e jogadores de búzios, pois o efeito será o mesmo.
Um segundo ponto: se a recente escalada das expectativas de inflação acendeu o “sinal amarelo” no BC, o que deveria ter acontecido quando as expectativas estavam em queda? Por que este questionamento só surgiu agora? Esta é mais uma evidência de que governos não gostam de más notícias e, no limite, preferem quebrar o termômetro.
Por fim, somente quem vive fora do mercado financeiro pode achar que há uma espécie de “conspiração” para levar as expectativas de inflação para cima e, assim, as taxas de juros. A realidade é outra: na verdade, há intensos debates entre os diversos participantes do mercado, com visões das mais otimistas até as mais pessimistas sobre o tema. Aliás, se não fosse assim, não existiria mercado, não é mesmo? O mercado, onde há compras e vendas, só é possível com visões contrastantes sobre o futuro. Se houvesse uma “conspiração”, todos estariam na mesma ponta.
O sistema de metas de inflação vem funcionando com incontestável sucesso há mais de 10 anos. Nesse sistema, a âncora da inflação é a credibilidade do Banco Central, que procura controlar as expectativas da inflação futura através do seu principal instrumento, a taxa de juros. Portanto, as expectativas são o principal componente deste sistema. Ameaçar este fundamento é só mais uma evidência de que este governo, assim como o anterior, continua brincando com fogo.

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Comentários (02)

  1. Pois é Everton, todos nós gostaríamos de ter taxas de juros mais baixa. Só precisa combinar com a inflação… Infelizmente, nosso país tem muitos problemas estruturais, que acabam resultando em uma taxa de juros mais alta. Vou desenvolver este ponto em um post em breve.
    Quanto ao controle da bolsa, leia o meu post "Teoria da Conspiração" do dia 21/10/10.
    Abraço!

    Marcelo Guterman, em 14 de março de 2011. Responder
  2. Olá Marcelo.
    Eu particularmente acredito que quem controla o mercado de capitais são as grandes instituição financeiras dos EUA que investem aqui no Brasil, ou melhor na IBovespa. Aqui somos uma especie de filial deles.
    Na minha simples e única opinião particular.
    Porém o governo vem fazendo um trabalho bom, mas com juros mais altos, as vendas de produtos de grande valor, como imóveis e veiculos, pode cair e muito.
    Não que isso seja um desastre, porém pode atrasar o processo de crescemento do país.
    Afinal será que não é por isso que o maior país da America Latina não deslancha nunca?….
    Não sabemos, e existe outros fatores, com certeza.
    Um forte abraço e ótimo artigo
    EvertonRic do Finanças Forever.blogspot

    evertonric, em 14 de março de 2011. Responder

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