A parábola do faisão gordo

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Acabo de ler o último livro de Michael Lewis, Boomerang. Lewis é autor de vários best-sellers sobre o mercado financeiro, entre os quais The Big Short, que já foi comentado aqui (The Big Short. Entenda porque os EUA perderam o rating AAA).

Boomerang é a continuação do The Big Short: trata dos efeitos da crise nos países desenvolvidos. Ou melhor, mostra como o outro lado da moeda da crise está nas dívidas dos países desenvolvidos. Em seu livro, como sempre muito bem escrito, Lewis discorre com o seu característico humor ácido sobre a situação das contas públicas de Islândia, Irlanda, Grécia e EUA. Há também um capítulo sobre a Alemanha, uma das peças centrais do drama europeu.

Não vou fazer a resenha do livro, que pode ser lido em poucos dias. Vou aproveitar a ocasião para reproduzir uma parábola real que o autor conta no final do livro. A parábola do faisão gordo.

A parábola se passa em Blenheim Palace, a casa que um dia foi da família de Churchill. No inverno anterior, os caçadores de faisões haviam sido muito eficientes: todos os bichos haviam sido caçados, menos um. Este sortudo passou a ser o rei do pedaço: podia comer tudo, sem a concorrência de outros faisões. O animal, antes regulado pelo meio-ambiente, passou a crescer e crescer, pois comia tudo o que via pela frente. Seu tamanho foi aumentando, o que lhe permitia assustar outros pássaros que porventura ousassem desafiá-lo em seu campo. Em pouco tempo ficou extremamente obeso. Até o dia em que, não mais conseguindo voar, foi presa fácil de uma raposa.

Lewis conta esta parábola para ilustrar o que aconteceu com as finanças públicas de muitas economias desenvolvidas: estando diante de um ambiente desregulado e farto em crédito, muitos países se entregaram à farra do consumo. Ficaram tão gordas, que se tornaram presas fáceis da crise.

Muitos culpam a ganância do mercado financeiro pelo que aconteceu à Grécia, Irlanda, Portugal, Itália e até mesmo os EUA. Mas essa é só uma parte da história. Convém perguntar porque países como Dinamarca, Suécia, Holanda, Alemanha e outros na mesma Europa, não estão sofrendo as mesmas agruras. E a resposta é dada pela parábola: a raposa só consegue pegar o faisão gordo. Se os governos e a própria sociedade (pois o governo é uma escolha da sociedade) de Grécia, Irlanda, etc, não tivesse se entregado à riqueza do crédito fácil, poderiam ter escapado da crise, como fizeram os países do segundo grupo.

O mesmo vale para a nossa vida pessoal. Muitos culpam a má sorte pelo seu destino: “ah, se eu não tivesse perdido meu emprego”, “ah, se eu não tivesse sofrido aquele acidente”, “ah, se eu não tivesse me casado”, “ah, se eu tivesse me casado”… Pois é, sempre há uma raposa à espreita dos faisões gordos. Há pessoas para quem a vida parece sorrir o tempo todo. Nada lhes acontece de errado. E isso é mais falso que uma nota de 3 reais. Há problemas na vida de todas as pessoas. A diferença está em como as pessoas estão preparadas para enfrentar os problemas que aparecem. Algumas são prudentes, não vivem além de suas possibilidade, e procuram sempre guardar alguma coisa para emergências e para o futuro. Outros vivem no limite de suas possibilidades, ou além. Quando aparece a raposa, quem está mais vulnerável?

Claro, a raposa (ou, no caso, o mercado financeiro, ou um determinado problema particular) tem culpa no cartório: afinal, é ela a responsável pelo bote final. Mas, para ser comido pela raposa, é preciso fazer a sua parte. E muitas pessoas se esforçam ao máximo para engordar o seu padrão de vida, a ponto de um pequeno problema tornar-se uma tragédia.

Esta crise deveria servir-nos para repensar o nosso próprio estilo de vida.

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Comentários (01)

  1. Parabéns pelo post!

    Abços

    ITM

    http://investindo-todo-mes.blogspot.com/, em 18 de janeiro de 2012. Responder

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