Crédito: do sonho ao pesadelo

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Caso 1: A assistente jurídica Ana Claudia Borges, com renda de R$ 1,5 mil, teve a ficha aprovada no ano passado para um Celta 1.0 2008 em 48 parcelas de R$ 692. Normalmente, o banco exige que a prestação seja equivalente a 30% da renda mensal. Após pagar seis parcelas, teve problemas com o cartão de crédito. “Comprei mais do que podia”, admite ela. Sem condições de pagar o carro, Ana Claudia entrou com ação de revisão das parcelas e conseguiu reduzir as prestações para R$ 399. “Estou conseguindo depositar o valor em Juízo, até que a ação seja concluída.”

Caso 2: Um consumidor que pediu anonimato adquiriu um Corsa sedã zero em 72 parcelas de R$ 630, sem entrada. Pagou as prestações durante um ano, mas, com a chegada do terceiro filho, passou a enfrentar problemas financeiros. Quando fez o crediário, o valor da prestação era superior a 30% de sua renda. “Para compensar a renda, o banco colocou como condição que eu fizesse um seguro por três anos, mas também não tive condição de arcar com essa despesa”, conta ele. Após três meses de inadimplência, teve o carro apreendido. Faltavam R$ 35 mil a serem pagos. “Perdi o carro, as prestações que havia pago e ainda fiquei devendo R$ 9 mil, pois o valor que o banco obteve com a venda do Corsa não cobriu a dívida toda.” Hoje, está sem carro e com o nome sujo na praça, pois não conseguiu quitar o valor restante.

Caso 3: Anderson Xavier Lima conta que sua mãe, Edneia, comprou o primeiro automóvel há um ano e meio, um Celta 1.0, sem entrada. Funcionária de uma gráfica com salário de R$ 1,5 mil, ela achou que daria conta das 60 prestações de R$ 650. “Só que o vendedor não informou que, a cada um ano, há uma prestação intermediária de R$ 3,5 mil”, diz Lima. Edneia já pagou 17 prestações normais, e, para quitar a primeira intermediária, fez empréstimo bancário. “Agora ela tem duas dívidas, três anos e meio de prestações de R$ 650 e mais quatro intermediárias”, lamenta Lima, que move ação contra o banco.

Caso 4: O vendedor Vinicius Cavalcante adquiriu um Fiesta há três anos, no valor de R$ 27 mil. Deu R$ 4 mil de entrada e financiou o restante em 60 parcelas de R$ 678. Após pagar 12 delas, teve problemas com outras dívidas – uma delas a da faculdade de direito que cursava – e atrasou duas prestações. Contratou a Suprema Consultoria (especializada em avaliar contratos de financiamento de veículos) e conta que conseguiu baixar as prestações para R$ 430, que agora estão em dia.

Estes e outros casos estão na reportagem de capa do Estadão de hoje, 14 milhões de famílias comprometem um terço da renda mensal com dívidas. Não que problemas com dívidas sejam novidade. Existem desde que inventaram a compra a crédito. Mas começa a chamar a atenção a extensão do problema. Estamos agora colhendo os frutos amargos da expansão da oferta de crédito ocorrida como resposta à recessão de 2009. Parece-me que são quatro os fatores que nos fizeram chegar a este ponto:

1) O incentivo do governo ao consumo. A atual equipe econômica, a presidente incluída, acredita piamente que a demanda estimula o crescimento econômico. Basta que a demanda esteja lá, para que a oferta siga atrás, criando um círculo virtuoso. É, grosso modo, a escola econômica de Keynes. O que esta escola ignora é que a decisão de investimento é função de muitos outros fatores além da demanda. Uma determinada política pode estimular a demanda até o infinito; se o empresário não encontrar condições econômicas para atendê-la, a demanda só criará inflação. Por isso, o estímulo à oferta (o chamada “supply-side economics”) é hoje considerado pelo main-stream do pensamento econômico, a forma mais adequada de induzir o crescimento econômico. Estabeleça políticas para que a oferta possa aumentar (infraestrutura adequada, ambiente de negócios amigável, abundância de capital financeiro e humano). A demanda por produtos sempre existirá, como veremos no item 4 abaixo.

2) Busca do lucro de curto prazo por parte dos bancos. Os bancos viram no financiamento à compra de automóveis um filão irresistível. E adotaram práticas que se voltaram contra si mesmos como um bumerangue. O caso 2 acima é típico: para passar por cima da exigência de comprometimento de renda máximo de 30% da renda, o banco enfiou no consumidor um seguro por 3 anos! Além de poder configurar venda casada, o que é proibído por lei, a despesa com o seguro (que certamente não era o mais barato do mercado) piorou a situação financeira do pobre coitado, ajudando a precipitar a situação de inadimplência.

3) A falta de educação financeira da população. Dá pena ler alguns dos casos acima. Peguemos como exemplo o caso 3. Digamos que um Celta 1.0 custava R$ 26 mil há um ano e meio. 60 prestações de R$ 650 equivaleria a uma taxa mensal de aproximadamente 1,44% ao mês. É uma taxa alta, mas não tão alta para os padrões que tínhamos no início de 2011, quando a SELIC estava em 11%. Portanto, seria para desconfiar. Incluindo as anuais de R$ 3,5 mil, a taxa salta para 2,8% ao mês, o que era mais compatível com esse tipo de financiamento. Ok, o gerente que fez o financiamento pode ter omitido informações, e o banco já está sendo justamente processado. Mas certamente os contratos assinados mencionavam as tais parcelas, e deveriam ter sido lidos. Falta formação, e os bancos deitam e rolam, como vimos no item anterior.

4) O vício do consumo. O acesso ao crédito fácil desperta o bichinho do consumismo que todos temos. O que antes não nos fazia falta, agora parece o oxigênio que respiramos. Não conseguimos mais viver sem comprar um carro, ou o segundo carro, ou trocar de carro. E o desejo torna-se obsessão. Não tenho imagem melhor para esse processo do que o anel da saga Senhor dos Anéis. Quem leu o livro ou assistiu o filme, viu como as pessoas que entravam em contato com o anel se transformavam, e tudo o mais desaparecia diante do desejo obsessivo de tomar posse do objeto. Isso, claro, é um extremo. Mas muitos se comportam dessa maneira, e não descansam enquanto não obtém o que desejam. E ao finalmente obterem, descobrem, depois de algum tempo, que aquilo não tem o condão de fazer uma pessoa feliz. E partem em busca do seu próximo objeto de desejo, mesmo antes de quitar as dívidas que contraiu.

Vejamos por onde podemos evitar que se repitam situações como essas.

Infelizmente, o fator 1 acima continuará agindo por muito tempo. Este governo tem uma visão míope do problema econômico que o país enfrenta, e vai continuar dando estímulos irresponsáveis para o consumo através do crédito. Basta ver o movimento de diminuição a fórceps dos spreads, capitaneados pelos bancos públicos. Ok, juros menores levam à diminuição da inadimplência. Mas o que o governo realmente quer é que, com os juros ocupando menor espaço do orçamento, o consumidor possa assumir mais dívidas e consumir mais! No final, chegaremos ao mesmo ponto, com juros menores.

O fator 2 também não mudará, por definição. Mas, pelo menos, os bancos têm se mostrado mais arredios a aumentar a oferta de crédito, pelo menos enquanto digerem o aumento inesperado da inadimplência gerado pelo ciclo de crédito anterior. Ou seja, a mesma força que fez aumentar a oferta de crédito há dois anos, faz agora diminuir: a busca pelo lucro (ou, pelo menos, a diminuição do prejuízo).

Chegamos aos fatores 3 e 4, que estão nas nossas mãos. Cabe a nós a tarefa de nos educarmos financeiramente, já que esta formação é deficiente nas escolas. As crianças aprendem o que são rochas magmáticas, oração subordinada adversativa e ácido desoxirribonucleico, mas não aprendem como calcular os juros embutidos em uma prestação. Por isso, é preciso suprir esta lacuna com auto-estudo. Ou, continuar a ser enganado pelos bancos e financeiras da vida.

Por fim, conformar-se com o que se pode comprar com o próprio orçamento, e ter em mente que acidentes acontecem no percurso da vida (e que, portanto, o orçamento não deve ser “forçado” para que caibam os nossos desejos), são o grande segredo para a tranquilidade financeira (veja a respeito o post Todos somos Dr. Jekyll e Mr. Hide). Caso contrário, o que começou como sonho, pode terminar em pesadelo.

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Comentários (11)

  1. Amigo Dr Money,

    É uma pena que o povo brasileiro continua gastando mais do que pode.

    Recebo diariamente vários e-mails e telefonemas de pessoas desesperadas por 3, 5, 10 mil reais para quitar dívidas, limpar o nome, etc…

    Estou preparando um novo layout para o site http://www.emprestimo.org, e que tem o objetivo de educar as classes C e D. Com uma linguagem simples e que será lançado no mês que vem. Recebemos diariamente quase 1000 leitores, e estamos na 2a posição do Google para emprestimo

    Gostaria muito de contar com o seu apoio neste projeto.

    Um abraço,

    Guilherme da Luz

    Guilherme da Luz, em 14 de junho de 2012. Responder
  2. Gostaria de complementar sobre os vícios do consumo. Acontece que as pessoas costumam consumir para tentar se satisfazer. Não devemos consumir para nos satisfazer, pois satisfação tem a ver com realização e realização não contempla o que temos e sim o que decidimos ser. Esse consumo nos leva a tentar preencher um vazio interior que produto ou serviço algum consegue preencher. Consumimos, consumimos e consumimos um pouco mais, e nunca matamos nossa vontade. Nunca estaremos satisfeitos. Você nunca vai conseguir se satisfazer com compras, isso porque o TER não preenche o SER.

    Guilherme Azevedo, em 14 de junho de 2012. Responder
  3. Olá…e o que achou do americano médio nas palavras do Manteiga?

    ” Em primeiro lugar, o endividamento das famílias brasileiras é dos menores do mundo. Sabe qual é o comprometimento de orçamento familiar das famílias brasileiras? Em torno de 20% a 22%. Sabe quanto é nos Estados Unidos? Na maioria dos países é acima de 80%.”

    Isto é uma inverdade, não é?

    Fabio, em 31 de maio de 2012. Responder
    • Fabio, o ministro Mantega misturou as bolas (não é de se estranhar…). Ele confunde comprometimento da renda mensal com pagamento de juros (que é 22%, ou seja, o brasileiro está gastando, na média, 22% de sua renda com pagamento de juros e principal), com o total do endividamento sobre a renda anual. Este número no Brasil é de aproximadamente 42%, ou seja, a dívida das famílias no Brasil representa 42% de sua renda anual.
      Veja este link http://research.stlouisfed.org/fred2/series/TDSP?cid=97: nos EUA, o serviço da dívida representa 11% da renda mensal. É este número que deveria ser comparado com os 22% dos brasileiros. Isso acontece porque as taxas de juros aqui são bem maiores. Contrair dívidas no Brasil é uma verdadeira armadilha.

      Dr. Money, em 31 de maio de 2012. Responder
      • Então, você acredita que uma redução forçada de juros por decreto contribuirá para diminuir o nível de endividamento das famílias ao longo do tempo?

        Fábio o, em 02 de junho de 2012. Responder
        • Fábio, em primeiro lugar não acredito em redução forçada dos juros. As taxas de juros, como qualquer outro preço da economia, não suporta tabelamento. Se os preços não forem corretos, a mercadoria some da prateleira.
          A redução dos juros contribuirá sim para a diminuição da inadimplência, mas somente se a oferta não aumentar de maneira a manter o nível de endividamento das famílias no atual patamar.

          drmoney, em 02 de junho de 2012. Responder
          • Podemos ter mais volume de crédito, com menor endividamento médio, não? E com uma métrica de inadimplência melhor ou igual à atualmente verificada, não é? Seria apenas questão de, na margem, acrescentar novos tomadores que não aqueles que já estão tomados. Isto é, proporcionar acesso ao crédito àqueles que não o tinham e diminuir o grau de endividamento dos que já possuem devido à queda dos juros.

            Lógico que em temos agregados, o endividamento aumenta com maior volume de crédito. É tautológico.

            Fabio$, em 02 de junho de 2012.
  4. Com o fim da segunda guerra mundial, foi implantada a cultura do consumo, ou seja, a felicidade expressa nos bens materiais. A propaganda do American Way of Life gerou uma economia capitalista baseada no consumo desenfreado. Em seu contraponto existia o Comunismo, que na verdade nada mais era que um regime ditatorial, com a riqueza para poucos, ou seja, nunca foi uma opção real ao capitalismo. Talvez a única coisa que se contrapôs ao Capitalismo de Consumo tenha sido a ContraCultura da década de 70. Porém para desmoralizar o movimento, a CIA começou a se infiltrar e disseminar nestes grupos o uso de drogas como o LSD e a Cocaína (Criando os Impérios do Narcotráfico na América Latina). Os HIppies que na década de 70 defendiam uma economia sustentável tiveram seus ideais enfraquecidos, mas agora estão na moda, como ambientalistas, tendo suas idéias defendidas por vários governos em encontros como a Rio +20..

    Allan Ferreira, em 30 de maio de 2012. Responder
  5. O item (4) O vício do consumo) lembra o livro Admiravel Mundo Novo de Aldous Huxley.
    No livro, as pessoas, desde que nascem, são induzidas a consumirem o tempo todo, nunca reaproveitam nada comprado antes, nunca fazem nada que não seja consumir.

    Recomendo a leitura.

    souzacds, em 28 de maio de 2012. Responder
  6. Recomendo ler este post de outro blog, que é bem complementar a este:
    http://medicoinvestidor.blogspot.com.br/2012/05/as-financeiras-querem-dominar-o-brasil.html

    Renato C, em 27 de maio de 2012. Responder
  7. Perfeito !

    Renato C, em 27 de maio de 2012. Responder

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