Demografia e aposentadoria: o problema será seu!

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Cena 1: há indícios de que o governo Chinês pretende relaxar as regras de planejamento familiar vigentes no gigante asiático nos últimos 30 anos. Por essas regras, só tem direito a ter dois filhos (e não mais do que dois), casais em que marido e mulher tenham sido filhos únicos. A nova lei, que seria testada inicialmente em apenas algumas províncias selecionadas a partir do ano que vem, permitiria que casais em que apenas um dos dois cônjuges tenha sido filho único possa ter dois filhos. A média atual de filhos por mulher na China hoje é de 1,2, sendo que o mínimo para reposição da população é de 2.

Cena 2: os sindicatos franceses simplesmente pararam o país nessa semana, em protesto às mudanças de regras na aposentadoria. Que mudança seria essa? Elevação da idade mínima para requerer aposentadoria de 60 para 62 anos de idade, e ser elegível para aposentadoria integral de 65 para 67 anos.
Cena 3: semana passada, o IPEA anunciou que a população brasileira deve começar a encolher a partir de 2030, em função da queda da taxa de natalidade observada nas últimas quatro décadas. A partir de 2030, os únicos grupos populacionais que crescerão serão aqueles com idade superior a 45 anos.
O que as três cenas têm em comum ? Todas se referem a um assunto muitíssimo importante, mas ao qual não se dá a devida importância, pois não tem reflexos no curto prazo: demografia. A população mundial está envelhecendo como nunca e a população dos países desenvolvidos (com exceção dos Estados Unidos) já está diminuindo.
O impacto desse fenômeno sobre o sistema de aposentadorias é direto (sem falar no sistema público de saúde, que não é o foco desse post). Não vou entrar aqui no mérito do déficit ou não do sistema previdenciário brasileiro, mas apenas relembrar algumas verdades matemáticas. Sendo matemáticas, não deveriam se prestar a manipulações políticas ou ideológicas.
Vamos imaginar um sistema em que cada indivíduo fosse responsável pela sua própria aposentadoria. No limite é isso o que acontece, dado que no conjunto da população brasileira, uns vivem mais e outros menos, e os que vivem menos pagam pela aposentadoria dos que vivem mais. Na média, funciona como se fosse um só indivíduo que vivesse a idade média da população brasileira.
Digamos que uma pessoa desejasse se aposentar aos 55 anos de idade, e tenha começado a trabalhar (e contribuir para o sistema de previdência) aos 25 anos de idade. Digamos também que seu salário cresça em média 5% ao ano acima da inflação, e que este indivíduo contribua com 10% de seu salário para a previdência. Consideremos também que a remuneração da poupança previdenciária seja de 6% ao ano (acima da inflação) antes e depois da aposentadoria. Pergunta: considerando todas essas premissas, durante quanto tempo esse aposentado consiguiria sobreviver com metade do seu último salário da ativa? Ou seja, o indivíduo se aposenta e começa a retirar de sua poupança previdenciária metade do seu último salário mensalmente. Em quanto tempo o dinheiro terminaria? Resposta: em 8 anos e 9 meses. Ou seja, antes de completar 64 anos de idade, esse aposentado terá ido à falência.
Drástico? Exagero? Pois bem, essas premissas são mais ou menos o que temos hoje em termos de perfil do aposentado brasileiro. Pode não ser o do aposentado urbano, que recolhe suas contribuições ao sistema regularmente. Mas lembre-se de que uma parte relevante das aposentadorias se dá por idade (sem contribuição comprovada, portanto), além dos benefícios sociais, como a aposentadoria rural. Só neste ano, até setembro, mesmo sem considerar os benefícios sociais, o sistema previdenciário já acumula déficit de R$ 40 bilhões e R$ 44 bilhões nos últimos 12 meses.
Para melhorar, só há duas formas: aumentando-se a idade da aposentadoria ou o montante da contribuição. Com as mesmas premissas anteriores, mas adiando a aposentadoria para os 60 anos de idade, a poupança previdenciária terminaria aos 72 anos e 3 meses. Aos 65 anos, a poupança duraria até os 80 anos e 8 meses.
Podemos também aumentar o tamanho da contribuição, de 10% para 15% do salário por exemplo. Neste caso, ao aposentar-se aos 65 anos, o indivíduo poderia sobreviver até os 104 anos. Veja como é importante o tamanho da poupança previdenciária! Aumentando em 50% o valor da contribuição (de 10% para 15% do salário), o aposentado extende o seu benefício em 25 anos!
Enfim, essa discussão sobre demografia é muito importante para a solvência futura dos governos, mas é ainda mais importante para o seu próprio futuro. Os governos, se não quiserem quebrar no futuro, terão que fazer ajustes no sistema. Os indivíduos, se não quiserem quebrar no futuro, terão que aumentar a sua poupança ou adiar a sua aposentadoria. Provavelmente uma combinação das duas coisas.

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Comentários (01)

  1. Olha, este tema me dava arrepios. Digo "dava" porque mudei de filosofia. Estou absolutamente convencido de que vou morrer trabalhando, e em algo meu. Se for um negócio que ande mais ou menos por si próprio, sorte minha. Senão, terei de atuar no limite de minhas forças de ancião.

    Faço reservas diligentemente, mas não penso em usá-las como a tábua de salvação, pois não sei quanto tempo vou viver e quanto elas então durariam se forem dilapidadas.

    Empreender é preciso.

    Esqueçam a previdência, seja ela pública ou privada, por Deus. Esta é uma conta que não fecha. Só a empresa própria salva, seja ela uma grande consultoria ou um trailer que vende empadas.

    Roberto Pina Rizzo, em 24 de outubro de 2010. Responder

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