Ninguém tem direito à felicidade

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Deparei-me com um texto espetacular da jornalista Eliane Brum: Meu filho, você não merece nada. A tese da autora é de que os filhos da classe média não estão sendo preparados para as frustrações da vida, que são inevitáveis. Os pais os criam fornecendo-lhes tudo, evitando a todo o custo que tenham que se esforçar por conquistar aquilo que querem. Moral da história: as crianças crescem com a idéia de que tem direito à felicidade. Quando o mundo a nega, sentem-se traídos.

O que isso significa especificamente em termos de educação financeira?

Em primeiro lugar, as crianças devem saber que as coisas custam, e quanto custam. Alguns exercícios simples podem ajudar. Por exemplo, em um supermercado, para evitar aquele choramingo característico da criança pequena que pede tudo, dê a ela R$ 3,00, e diga a ela que escolha o que quiser. Assim, ela vai ter uma primeira lição valiosa sobre restrição orçamentária. A criança vai escolher uma primeira mercadoria, e depois vai querer outra, mas terá que abrir mão da primeira. Terá que se virar com suas escolhas. Para os mais velhos, ainda não inventaram nada melhor que a mesada para ensinar a lidar com restrições orçamentárias. No post 7 dicas para adminstrar a mesada dos filhos falo sobre o assunto.

Os jovens devem saber quanto custa a manutenção de uma casa. Quanto é gasto com supermercado, quanto custa um médico, quanto sai uma viagem de férias. Aliás, os jovens hoje têm a sensação de que têm direito a um carro na garagem e um apartamento quando resolverem se casar. E não tem noção de quanto custa a manutenção disso tudo. Uma sugestão: somente comprar um carro para um filho quando este puder pagar IPVA, seguro, mecânico, multas, combustível, etc, etc, etc. Ou, no caso de emprestar um carro, somente fazê-lo se o filho topar pagar por qualquer conserto que se fizer necessário, desde uma raladinha até a franquia da perda total.

– Mas Dr. Money, meu filho não trabalha, só estuda…

Pois então que ande de ônibus, ora essa. O jovem só vai dar valor às coisas quando não tive-las à mão. E andar de ônibus é algo muito digno, não tira pedaço de ninguém.

Outra noção importante é que os filhos têm obrigação de estudar, da mesma forma que os pais têm obrigação de trabalhar. Ir bem na escola, ou pelo menos esforçar-se por ir bem, é obrigação, não favor. E ligar recompensas ou castigos ao desempenho escolar pode ser algo fora de moda, mas ainda é muito eficaz. Premiar o esforço, mais do que as notas em si, é a melhor abordagem. Desculpem-me, mas acho um absurdo financiar a balada de um rapaz ou uma moça que não estão nem aí para a escola, sob o pretexto de que eles “precisam se divertir”. De “precisar” em “precisar”, cria-se um monstro.

Algumas restrições simples podem ser criadas, para acostumar as crianças e jovens com as idéias de restrição, negociação e concessão. Por exemplo, ter apenas uma TV em casa (aliás, sobre este assunto, leia o excelente post Desligue a televisão, do blog Finanças Forever). Ou somente um ou dois computadores. Com essa restrição, os filhos (e os pais também!) precisarão aprender a dividir espaços, negociar, conceder. Esta é a vida, é isto que as crianças encontrarão na selva quando crescerem. E estarão melhor preparados se tiverem “treinado” em casa.

Enfim, este artigo da jornalista Eliane Brum deveria levar os pais a refletirem em como estão preparando os seus filhos para o mundo. Assim como levar os filhos a refletirem sobre o seu próprio futuro.

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Comentários (01)

  1. Olá Dr. Money,
    Obrigado por citar o blog Finanças Forever.
    Eu ainda não possuo filhos, portanto irei guardar os seus posts relacionados ao tema para ler no futuro, salvando-os no word.
    Porém já enviei uma cópia para os amigos e parentes que possuem filhos pequenos.
    Abraços, grato mais uma vez.

    Everton Ricardo, em 14 de julho de 2011. Responder

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