O Brasil envelhece antes de ficar rico

Anote os seguintes dados:

- Enquanto a França levou mais de um século para ter um aumento de 7% para 14% da população acima de 65 anos ou mais, o Brasil passará pelo mesmo processo em duas décadas, de 2011 a 2031.
-  A população idosa no Brasil, que hoje corresponde a 11% da população em idade ativa, em 2050, será de 49%.
- Em meados da década de 20, a população em idade de trabalhar vai começar a cair, e todo o crescimento populacional brasileiro se dará pelo aumento dos idosos.
- Nos próximos 40 anos, a população brasileira como um todo vai crescer a uma média de apenas 0,3% ao ano, enquanto os idosos crescerão a uma taxa de 3,2%.
- Os idosos, que eram 4,9% da população em 1950 (e demoraram 60 anos para dobrar essa proporção e chegar a 10,2% em 2010), vão triplicar para 29,7% até 2050 (igual ao Japão, nação mais velha do planeta hoje).
- Os gastos previdenciários vão subir para 22,4% do PIB (os que mais gastam chegam no máximo perto de 15%).
- O gasto por criança no Brasil é 9,8% do salário médio nacional, enquanto na OCDE é de 15,5%. Por outro lado, o gasto previdenciário por pessoa aqui é 66,5% do salário médio, comparado com 30,4% na OCDE.
- O número de pessoas que cuidam de velhos profissionalmente vai ter que dobrar até 2020, e quintuplicar até 2050.

Estes dados aterradores constam de um relatório elaborado pelo Banco Mundial, segundo reportagem do Estadão (O Brasil está ficando velho antes de ficar rico). Vejo uma mobilização bastante intensa com relação às mudanças climáticas, com uma miríade de ONGs brandindo estudos sobre como o nosso planeta está ameaçado de esquentar, ou esfriar, ou ficar submerso, ou se tornar um deserto em 100 ou 200 anos, pautando a imprensa, e marcando uma agenda para os governos. Muito bem. Por outro lado, este outro tema, o do envelhecimento da população, parece não ser assim tão popular, apesar de estar muito mais próximo (30 ou 40 anos à frente) e ser líquido e certo. Às vezes sinto-me como se estivesse no Titanic: todos celebrando, e o casco já fazendo água…

Os governos (não só o brasileiro) ainda estão muito tímidos no enfrentamento deste problema. No caso do Brasil, o problema é ainda mais grave: estamos envelhecendo mais rapidamente, e antes de termos elevado a nossa renda per capita. Não conseguimos, por incompetência e desvios ideológicos, aumentar a nossa produtividade e a qualidade do capital humano, de modo a aumentar o nosso crescimento potencial. Então, o tsunami nos pegará na praia, com uma mão na frente e outra atrás.

O que fazer?

Em primeiro lugar, não dá para esperar nada do governo. É preciso que cada um se prepare. Para isso, é necessário aumentar a poupança pessoal, de forma a complementar a renda quando a fila andar. Não quero ser apocalíptico, mas analisando os números acima, mais cedo ou mais tarde o sistema quebra. Há duas formas de quebrar: deixando de pagar as aposentadorias ou socializando o prejuízo, via inflação. Dado o histórico brasileiro, a segunda alternativa é a mais provável. Nesse caso, com uma mão o governo faz de conta que paga as aposentadorias, e com a outra pega de volta o que pagou via inflação.

Claro, há sempre uma terceira alternativa, para a qual alguns governos europeus começam a caminhar: dificultar a aposentadoria, seja aumentando a idade mínima, seja aumentando as contribuições. Fizemos isso no Brasil, ainda que de maneira tímida, no governo FHC, com o fator previdenciário. Mas, para atacar este problema, é preciso um estadista, que enfrente grupos de pressão em benefício da maioria silenciosa, e tome decisões certas, ainda que difíceis e impopulares.

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Comentários (03)

  1. Aceitar imigrantes qualificados provenientes de países ricos em dificuldades financeiras pode ser uma ótima alternativa. Estas pessoas possuem bom nivel educacional, qualidade de trabalho e podem transmitir riqueza tecnica. Devemos abrir mão de imigrantes desqualificados provenientes de lugares violtentos ou com alto consumo de drogas.

    PAULO ERNESTO, em 07 de janeiro de 2012. Responder
  2. Que tal aumentar a taxa de natalidade? Pelo menos para não inverter a pirâmide populaciomal.

    Anonymous, em 19 de julho de 2011. Responder
  3. Salve-se quem puder.

    Só o empreendedorismo salva. Vale tudo: de salgados para fora a consultoria. Só não esperem nada nem do governo nem dos fundos de investimento (estes servem apenas para atualizar o valor do dinheiro, se muito, e o duro é que ninguém sabe quanto precisa acumular para viver dignamente até o avanço no último centavo da reserva).

    Roberto Pina Rizzo, em 19 de julho de 2011. Responder

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