Saber esperar

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Se pudéssemos resumir todas as lições de finanças em uma só, certamente a regra de ouro, aquela que podemos considerar a mãe de todas as regras, seria esta: saber esperar.

Saber esperar é uma virtude que se adquire com a maturidade. Ou melhor, o saber esperar é uma medida da maturidade. Uma pessoa que não sabe esperar é imatura, por mais anos que leve nas costas. E, ao contrário, um jovem que aprendeu a esperar mostra uma maturidade admirável.

São já clássicos os experimentos com crianças, em que se propõe a escolha entre comer um doce imediatamente, ou esperar 15 minutos e então poder comer dois doces. As crianças que sabem esperar não só tem uma recompensa por isso (comer um doce a mais), mas mostram-se mais aptas para o aprendizado.

O crédito foi inventado para aqueles que não sabem ou não podem esperar. Há um desejo de consumo que precisa (precisa?) ser satisfeito hoje, e o crédito é a ponte que liga o amanhã ao agora. Como que por mágica, não é necessário mais esperar para obter o que se quer ou o que se precisa.

Obviamente não sou contra o crédito. Há situações em que fazer dívidas chega a ser indispensável. A compra de um imóvel é um exemplo clássico. Muitas vezes, o imóvel custa muitos anos da poupança de uma família. E simplesmente não dá para morar na casa da sogra até juntar todo o dinheiro necessário. Portanto, o financiamento imobiliário é a única saída.

Outro exemplo em que o crédito é necessário: gastos inesperados. Um acidente, uma doença, o desemprego. São situações em que a dívida pode ser a única saída.

Mas em um país como o Brasil, em que as taxas de juros ainda são pornográficas, é preciso tomar muito cuidado com as dívidas, mesmo nos dois casos acima. Saber esperar, nesses casos, é abrir mão de todo o consumo supérfluo, e até mesmo do necessário (veja o post O essencial, o necessário e o supérfluo), para sair da dívida o mais rapidamente possível. Ou seja, se não é possível esperar para comprar o apartamento, ou se a vida nos prega uma peça, é preciso mudar o estilo de vida, e colocar outros itens de consumo na fila de espera.

E o que dizer, então, daquele consumo que poderia, de fato, esperar? Endividar-se para comprar algo que não é necessário naquele momento talvez seja o melhor exemplo de imaturidade financeira. A criança mimada não sabe esperar. O adulto mimado também não.

Este fenômeno acontece também com os países. Estamos todos acompanhando a tragédia grega. A Grécia aproveitou a taxa de juros baixa proporcionada pela sua adesão à Zona do Euro, e fez dívidas como se não houvesse amanhã. Note, portanto, que, mesmo com taxas de juros muito baixas, é possível quebrar. Ou seja, mesmo depois das taxas de juros no Brasil atingirem níveis mais civilizados, endividar-se pode levar o indivíduo à bancarrota.

Voltemos à Grécia. A Grécia não salvou bancos. A Grécia não teve bolha imobiliária. O problema da Grécia é exclusivamente de um povo que teve o incentivo de consumir tudo e já, tarefa muito facilitada pelo crédito fácil e farto. A dívida grega é resultado do financiamento de uma máquina de consumo insustentável. Alguns exemplos retirados do livro Boomerang, já comentado aqui:

- o salário médio do setor público é quase três vezes maior que salário médio do setor privado;

- a companhia nacional de estradas de ferro tem receitas anuais de 100 milhões de euros, contra salários da ordem de 400 milhões de euros, mais 300 milhões em outras despesas;

- o sistema de ensino básico grego (um dos piores da Europa) emprega 4 vezes mais professores por aluno do que o finlandês, que é o melhor da Europa;

- a idade de aposentadoria para profissões consideradas “árduas” é de 55 anos para homens e 50 anos para mulheres.  Mais de 600 profissões na Grécia são consideradas “árduas”: cabeleireiros, locutores de rádio, garçons, músicos, são alguns exemplos.

Enfim, a Grécia é o exemplo acabado de um país que não soube viver dentro de suas possibilidades. Em outras palavras, um país que não soube esperar.

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Comentários (06)

  1. Hey Doctor, tu é f***…

    Mandou muito bem, escreveu o que eu estou aprendendo na marra, mas jamais saberia explicar de maneira tão simples!!!

    jvfreitasj, em 26 de abril de 2012. Responder
  2. Eu iria ESPERAR para comentar, mas resolvi comentar agora mesmo. Excelente reflexão Dr. Money, parabéns…

    Ri demais com a frase “…taxas de juros ainda são pornográficas”

    Abraço.

    Jônatas R. Silva, em 06 de março de 2012. Responder
  3. Muito bacana o texto Dr. Money. Como vc mesmo disse o saber esperar é um princípio de devemos aplicar nas nossas vidas diariamente, tanto no mercado financeiro, como na vida profissional e familiar.

    Abraços..

    Thiago Dias Quintino, em 01 de março de 2012. Responder
  4. Eu aprendi dar “5 minutos ” para os meus desejos, e é incrível como eles se modificam.
    Ótimo texto. Lúcido.

    Luciene Soares, em 28 de fevereiro de 2012. Responder
  5. As vezes da impressao q encaminhamos p o mesmo sentido que varios paises da zona do euro q estao falindo, por aqui temos todos os “defeitos” de cada um deles!
    Bom texto, resultado da leitura do livro Bumerangue?
    Bjs

    Ostra, em 27 de fevereiro de 2012. Responder
    • Não, o texto é resultado de minha vivência mesmo.
      Abraço!

      Dr. Money, em 28 de fevereiro de 2012. Responder

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