Todos somos Dr. Jekyll e Mr. Hide

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O meu colega de labuta Guilherme, do excelente blog Valores Reais, publicou um artigo interessantíssimo (Dívidas de até R$ 600 mil são comuns entre servidores públicos federais. E tudo gasto com supérfluos), repercutindo matéria do Correio Braziliense sobre o super-endividamento de servidores públicos federais, que teriam dívidas maiores do que o seu salário anual. O diagnóstico do Guilherme é de que falta educação financeira, o que levaria essas pessoas a não entender exatamente como funcionam os mecanismos que levam ao endividamento. A falta de conhecimentos financeiros certamente faz parte do diagnóstico, mas gostaria neste post de avançar um pouco em outra direção, diria, mais antropológica.

A combinação de estabilidade no emprego com desconto das parcelas do empréstimo diretamente do contra-cheque é o sonho de qualquer credor. Não por outro motivo, esta provavelmente é a parcela da população (ao lado dos aposentados) que mais devem receber ofertas de crédito. Alguns se endividam muito, alguns se endividam pouco, e alguns não aceitam essas ofertas. Por que?

A resposta vai além de conhecer os malefícios de um endividamento fora do controle. Mal comparando, é difícil hoje alguém dizer que não conhece os malefícios do consumo de drogas, ou do consumo excessivo de álcool, ou do fumo. No entanto, há pessoas que se drogam, que bebem em excesso, ou que fumam. Será que essas pessoas não têm informação? Parece-me que o problema fundamental é outro.

Trata-se da distinção entre desejo e vontade. Coloquialmente, dizemos que estamos com vontade de comer um bolo de chocolate. Na verdade, queremos dizer que temos desejo de comer um bolo de chocolate. A vontade é uma capacidade superior da alma humana, e que, esclarecida pela inteligência, nos permite controlar os desejos, muitos dos quais irracionais. Assim, por exemplo, sabemos pela inteligência que comer um bolo de chocolate às 3 da tarde não combina muito com a dieta a que nos propusemos. A vontade, informada pela inteligência, controla o desejo irresistível de atacar a geladeira. Pronto, dieta cumprida, corpo em cima.

Se fosse assim tão fácil… feliz ou infelizmente não somos robôs, e a vontade não controla os desejos de maneira perfeita. Assim, os desejos às vezes nos vencem. As desculpas são as mais variadas: “eu mereço”, “simplesmente não posso viver sem isso”, “minha pressão está baixa, preciso de um pouco de açucar”, e por aí vai. Note a frase que utilizei: os desejos nos vencem. Acontece como se não fôssemos nós a transgredir o que nos propusemos. Fomos vencidos por um terceiro. E o mais facinante: esse terceiro somos nós mesmos. Dr. Jeckyll e Mr. Hide convivem dentro da mesma pessoa. Essa é a natureza humana.

Exatamente o mesmo fenômeno ocorre com o consumismo. O desejo de ter coisas vai consumindo (a palavra parece mais do que adequada) a alma humana. Um sujeito pode até estudar finanças, entender como funciona o processo de endividamento, o poder dos juros compostos de acabar com a vida de uma pessoa, mas infelizmente a vontade pode não estar preparada para controlar o desejo de ter coisas. E, quando é assim, a oferta de mais crédito só agrava a situação. É como vender pinga para alcoolotra.

A verdadeira solução, além da educação da inteligência, passa necessariamente pela educação da vontade. E assim como a educação da inteligência, a educação da vontade não se improvisa. Se forja ao longo de anos. E quanto mais cedo começar, melhor. Por isso, os pais têm um papel fundamental. Muitos pais se preocupam, com justiça por sinal, em dar a melhor instrução para os seus filhos. É condição necessária, mas não suficiente. É preciso educar a vontade das crianças. Como? Não há fórmulas mágicas: só se faz isso contrariando-as. Alguns atos que ajudam:

– Obrigar as crianças a comer de tudo, mesmo que seja só um pouco. E refeições somente nas horas pré-determinadas.

– Manter um horário para o uso de TV, vídeo-game, computador. Não deixar usar a hora que der na telha.

– Trazer as crianças com o dinheiro curto. De preferência uma mesada, para que aprendam a administrar suas próprias prioridades. E nada de crédito.

E para quem já é adulto, e tem dificuldade em lidar com os seus próprios desejos? Em primeiro lugar, não exagere. Todos temos nossas fraquezas, o que não significa que vamos necessariamente arder no fogo do inferno. Somos humanos, e uma vontade perfeita é algo sobre-humano. Portanto, é natural, e até esperado, que sejamos vencidos em algumas de nossas lutas. O importante é procurar dar passos na direção certa na medida de nossas possibilidades. Por exemplo: uma pessoa acostumada a jantar fora todo dia pode tentar jantar fora dia sim, dia não. E aquele que não passa um dia sequer sem passar o cartão de crédito em alguma loja, pode tentar diminuir a frequência para 3 dias por semana. Uma coisa é certa: grandes sacrifícios costumam não funcionar. É preciso levar nossa vontade como que em um plano inclinado, com desafios crescentemente mais difíceis. E contar com as recaídas, que acontecerão, e não desanimar por isso. A luta por educar a vontade é como uma academia: um pouco a cada dia, e os resultados aparecerão ao longo de anos, não de semanas.

O caminho para os endividados é o mesmo que para os não endividados: contrariar-se a si mesmo, procurar que a vontade domine sobre os desejos, fazer com que Dr. Jekyll mantenha Mr. Hide sob controle. E, apesar de não parecer à primeira vista, este é o caminho para a felicidade possível neste mundo.

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Comentários (03)

  1. Espetacular Marcelo! Educar a vontade, em doses homeopáticas. Valeu pelas dicas e pela reflexão. Abção.
    http://www.fredgraef.com.br/blog

    Fred Graef, em 29 de maio de 2012. Responder
  2. Dr. Money, excelente artigo e grato pelas palavras!

    Destaco particularmente esse trecho que me marcou mais:

    “A verdadeira solução, além da educação da inteligência, passa necessariamente pela educação da vontade”.

    E isso tem tudo a ver com duas qualidades que todo ser humano deve saber cultivar: foco e disciplina. Foco para ter concentração em fazer o que é certo. Disciplina para manter o foco durante um prolongado período de tempo, até virar um hábito.

    É isso aí!
    Um grande abraço, e que Deus os abençoe!

    Guilherme, em 01 de maio de 2012. Responder
  3. Excelente artigo professô Dr.Money!

    O cartão só é bom pra comprar coisas na internet. Só que tem que ter controle, porque ele é uma tentação.

    Crédito então, creio ser pior ainda.

    Se o cara não sabe como controlar seus desejos lhe contrariando a si mesmo, já era companheiro!

    Se chance! Tá endividado garoto!

    Agora tem outra coisa: cada um cuida de seu próprio dinheiro. E assume as consequências. Depois não venha reclamar do Governo, dos Bancos, dos amigos, de que ninguém lhe ajuda etc. A culpa é toda sua!

    :-)

    Abração Doutor. Bom final de semana!

    @everton_ric

    EvertonRic, em 01 de maio de 2012. Responder

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