Bolsa: um quadro pouco animador

Os investidores estão começando a se cansar da bolsa. Depois de alguns anos de alegrias (mais especificamente de 2003 a meados de 2008), a bolsa vem derrapando há já 3 anos. O Ibovespa não consegue passar dos 70.000 pontos, e fechou o mês de maio na mesma pontuação de 29/10/2007. Decepcionante. Mas será mesmo?

A bolsa é um investimento de longo prazo. Pelo menos, é o que dizem. Então, vamos fazer o seguinte estudo: digamos que você investe no Ibovespa e resgata dali a 10 anos. Você faz a mesma coisa em um fundo DI. Vejamos o que acontece:

A linha azul é a bolsa, enquanto a linha vermelha é o CDI (não precisa nem dizer, né?). Quando a linha azul está acima da linha vermelha, significa que quem investiu 10 anos atrás na bolsa, ganhou mais do que se tivesse investido no fundo DI, e vice-versa. A escala de anos refere-se ao fim do período de investimento. Ou seja, 2005 refere-se ao período que vai de 1995 a 2005, e assim por diante.

Note, em primeiro lugar, como o rendimento do DI veio caindo consistentemente ao longo dos anos: quem investiu em 1995 em um fundo DI, obteve rendimento de 25% ao ano. Já quem investiu em 2001, obteve apenas 15% ao ano. Mas o que nos interessa é o Ibovespa. O investidor em bolsa que aguardou 10 anos para resgatar, obteve rendimento maior que o CDI entre outubro de 95 e abril de 96, entre setembro de 97 e setembro de 98, entre junho de 99 e novembro de 99, e entre agosto de 2000 e abril de 2001. Em qualquer outro período fora desses citados, o investidor em bolsa perdeu para o CDI. Nada muito alentador.

No entanto, a favor da bolsa há que considerar que este período foi marcado por taxas de juros muito altas, necessárias em um momento de estabilização da economia brasileira. Daqui para frente, com taxas de juros mais baixas, a bolsa tenderia a melhorar o seu desempenho. Um bom exemplo seria a bolsa americana, que tenderia a seguir o manual, que diz que a bolsa rende mais no longo prazo. Será? Vejamos um estudo semelhante, utilizando os títulos do governo americano de 10 anos e o S&P 500. Não é exatamente equivalente ao estudo brasileiro, pois utilizamos um título de longo prazo prefixado ao invés de uma taxa overnight. Além disso, consideramos que todos os cupons pagos por esses títulos são reinvestidos na mesma taxa, para simplificar a simulação. Vejamos o resultado:

A simulação é mais longa, considerando aplicações desde 1962. Nada muito animador, não é mesmo? Parece que as bolsas não estão correspondendo ao que se espera delas. O que pode estar acontecendo? Bem, podemos tentar várias explicações: o período de 10 anos não seria suficientemente longo ou a economia americana teria passado por inúmeras crises neste período (as duas crises do petróleo, a crise da dívida sul-americana, a crise da Ásia, crise da Rússia, crise do Nasdaq, crise do sub-prime…).

De qualquer forma, o estudo do passado pode até ser uma curiosidade, mas o que realmente importa é o que vai acontecer nos próximos 10 anos. No caso americano, com a Treasury de 10 anos pagando algo em torno de 3% ao ano, fica dif’ícil imaginar que a bolsa não vai bater esta taxa nos próximos 10 anos. Mesmo considerando os piores momentos, raramente o retorno da bolsa americana ficou abaixo deste patamar.

E quanto à bolsa brasileira? Bem, se considerarmos que as taxas de juros devem recuar ao longo dos próximos anos, e que, olhando para trás daqui a 10 anos, provavelmente a taxa observada ficará mais próxima de 10% do que de 15%, é possível que tenhamos uma bolsa com comportamento melhor. Isso é tudo que o que é possível dizer neste momento.

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