Buffet e o ouro

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Warren Buffet é o principal gestor do fundo Berkshire, que procura investir em empresas sólidas, que possam gerar bons lucros no longo prazo. Seus resultados têm sido muito positivos ao longo dos últimos quase 50 anos, o que tornou Buffet, além de multi-bilionário, um dos principais gurus da indústria de investimentos.

Uma vez por ano, Warren Buffet escreve uma carta de prestação de contas aos cotistas do Berkshire. Estas cartas são famosas, por trazerem, além da prestação de contas em si, algumas gotas de sabedoria sobre investimentos. A última (aqui) não foi diferente. Há um trecho bastante interessante, em que Buffet elenca três tipos de investimento: 1) investimentos que pagam juros, 2) investimentos inertes e 3) investimentos que geram dividendos. O primeiro, ele diz, apesar de parecer menos arriscado, é o mais arriscado dos três no longo prazo, pois não consegue preservar o poder de compra, apesar de prometer justamente isso. O terceiro, por sua vez, é formado pelos investimentos em empresas, e obviamente é o seu preferido. Mas é o segundo o mais interessante na carta de Buffet. Tomei a liberdade de traduzir o trecho em que ele descreve este tipo de investimento. O ouro é o exemplo mais famoso, e Buffet é impiedoso com o preço atual do ativo.

Acho que esta é a primeira vez que dou espaço para o ouro neste blog. Uma falha imperdoável, reconheço. Veja a valorização do ativo nos últimos 5 anos:

Será que o ouro ainda é um bom investimento hoje? Buffet responde. Boa leitura!

A segunda grande categoria de investimentos envolve ativos que não produzem nada, mas que são comprados na esperança de que alguém – que sabe também que o ativo será sempre improdutivo – vai pagar mais por eles no futuro. Tulipas, o exemplo mais famoso, rapidamente se tornou um favorito de tais compradores no século 17.

Este tipo de investimento requer uma expansão do conjunto de compradores, que, por sua vez, são atraídos porque eles acreditam que o conjunto de compradores vai se expandir ainda mais. Os detentores deste tipo de ativo não são inspirados por aquilo que o próprio ativo pode produzir – ele permanecerá para sempre sem vida -, mas pela crença de que os outros vão desejá-lo ainda mais avidamente no futuro.

O principal exemplo nesta categoria é o ouro, atualmente um grande favorito dos investidores que temem quase todos os outros ativos, especialmente dinheiro de papel (de cujo valor, como foi observado, eles têm razão para ter medo). O ouro, no entanto, tem duas deficiências significativas, não sendo nem muito útil e nem procriador. É verdade que o ouro tem alguma utilidade industrial e decorativa, mas a demanda para esses fins é um tanto limitada e incapaz de absorver toda nova produção. Além disso, se você possuir uma onça de ouro por uma eternidade, você ainda terá uma onça ao fim desse período.

O que motiva os compradores de ouro é a sua crença de que o medo vai aumentar. Durante a última década, a crença se provou correta. Além disso, o aumento do preço tem gerado o seu próprio entusiasmo de compra adicional, atraindo compradores que vêem a ascensão convalidando a tese de investimento. Como certos investidores aderem a qualquer moda, eles criam a sua própria verdade – por um tempo.

Nos últimos 15 anos, tanto as ações de empresas de Internet quanto os imóveis demonstraram os excessos extraordinários que podem ser criados pela combinação de uma tese inicialmente razoável com uma elevação dos preços bastante divulgada. Nestas bolhas, um exército de investidores originalmente céticos sucumbiu aos “motivos” do mercado, e o número de compradores aumentou – por um tempo – garantindo uma expansão suficiente para continuar a moda. Mas as bolhas muito grandes inevitavelmente estouram. E então o velho provérbio é confirmado mais uma vez: “O que o homem sábio faz no começo, o tolo faz no final”.

Hoje, o estoque de ouro do mundo é de cerca de 170.000 toneladas. Se todo esse ouro fosse fundido em uma única peça, formaria um cubo de cerca de 21 m de lado. A US$ 1.750 por onça – preço do ouro no momento em que eu escrevo – o seu valor seria de US$ 9,6 trilhões. Chame esse cubo de pilha A.

Vamos agora criar uma pilha B, valendo um montante igual. Para isso, poderia comprar toda a terra cultivável dos EUA (400 milhões de hectares, com produção equivalente a US$ 200 bilhões anuais), mais 16 Mobils Exxon (a empresa mais lucrativa do mundo, lucrando mais de US$ 40 bilhões anuais). Após estas aquisições, nós teríamos ainda US$ 1 trilhão de sobra para pequenas despesas (para evitar o sentimento de não ter mais dinheiro após esta orgia de compras). Você consegue imaginar um investidor com 9,6 trilhões de dólares selecionando a pilha A ao invés da pilha B?

Além do valor chocante dado o estoque existente de ouro, os preços atuais fazem com que a produção anual de ouro valha cerca de US$ 160 bilhões. Compradores – sejam os usuários de joias, para uso industrial, indivíduos assustados, ou especuladores – devem absorver continuamente essa oferta adicional apenas para manter o equilíbrio a preços atuais.

Daqui a um século, os 400 milhões de hectares de terras agrícolas terão produzido quantidades incríveis de milho, trigo, algodão e outras culturas – e continuará a produzir esse valioso prêmio, qualquer que seja a moeda da época. Exxon Mobil, provavelmente, terá entregue trilhões de dólares em dividendos para os seus proprietários, e também acumulará um patrimônio de muitos trilhões mais (e, lembre-se, você recebe 16 Exxons). Por outro lado, as 170.000 toneladas de ouro não terão se alterado em tamanho e ainda serão incapazes de produzir qualquer coisa. Você pode acariciar o cubo, mas ele não vai responder.

É certo que, quando as pessoas daqui a um século sentirem medo, é provável que muitos ainda corram para o ouro. Eu sou confiante, no entanto, de que o valor dos US$ 9,6 trilhões da pilha A vai se multiplicar a um ritmo muito inferior ao longo do século do que o da pilha B.

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Comentários (03)

  1. É como a teoria do idiota maior: você compra um ativo a preço, mesmo sabendo que não vale, porque acha que poderá vendê-lo a um preço mais alto para um idiota maior que entrará na posição no seu lugar. Acontece com frequência na avaliação de empresas com grandes promessas de turnaround ou de taxas elevadas de crescimento… rsrs
    Abs

    Ulisses Nehmi, em 16 de março de 2012. Responder
  2. Flawless victory!

    dimarcinho, em 16 de março de 2012. Responder
  3. Muito interessante, mas, quando se olha para a impressora do FED e do BCE tem-se a impressão de que, ao menos, até a próxima década o preço do vil metal ainda vai ser uma boa reserva de valor!
    A lamentar a falta de liquidez de nosso mercado, sequer há um ETFs.

    Abs

    JGould, em 16 de março de 2012. Responder

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