As novas regras da Poupança: serviço pela metade

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Como prevíamos em 12 de março (O fim da Caderneta de Poupança como a conhecemos), as regras do investimento mais popular do país foram alteradas. Parabéns para a presidente, que teve a coragem política de proceder a uma mudança há muito necessária. Pena que tenha sido feito pela metade. Da forma como foi anunciada, a nova regra poderá não ter o efeito desejado. Vejamos por que.

Em primeiro lugar, quais são as novas regras? Simples: para depósitos na Caderneta a partir de amanhã, toda vez que a SELIC for 8,50% ou menos, a remuneração será de 70% da SELIC mais a TR. Fazendo uma conta simples: com a SELIC a 8,50%, a remuneração passaria a ser de 5,95% ao ano mais a TR (hoje é de 6,17% ao ano mais TR). Portanto, a remuneração de 6,17% mais TR passa a ser um teto. O que isso significa?

Vejamos, em primeiro lugar, qual era o efeito da regra anterior, comparando a Poupança com os Fundos DI (este mesmo gráfico foi publicado no post citado acima):

Note que, pelas regras anteriores, a partir de uma SELIC de 8,50%, a Caderneta passava a ser mais rentável (considerando uma TR de 1% ao ano) do que um Fundo DI com taxa de 0,5%. Portanto, esse patamar de 8,50% não é arbitrário. Foi escolhido para que a Poupança perca atratividade a partir do patamar em que rende mais que um fundo DI bem barato.

Pois bem, e como fica com as novas regras? Vejamos o gráfico a seguir:

Este gráfico foi gerado com uma TR de 1% ao ano. Podemos ver que neste nível de TR, a nova regra não é suficente para fazer um fundo DI com taxa de 0,5% ser mais atrativo que a Caderneta. Na verdade, o break-even é uma taxa de administração zero: ou seja, somente um fundo DI com taxa zero empataria com a Caderneta (considerando uma alíquota de IR de 20%). Isso acontece porque a TR foi mantida na remuneração. Para que um fundo DI com taxa de 0,5% tivesse atratividade igual à da Poupança, a TR precisaria ser de 0,5%, que deve ser mais ou menos o que o governo espera para o valor da TR daqui em diante.

Como regra geral, a Poupança renderá mais que os Fundos DI quando a soma da TR mais a taxa de administração do fundo for superior a 1%. Ao adotar essa regra, o governo deve estar esperando uma TR em torno de 0,5% ao ano, de modo a tornar a Caderneta não atrativa somente para grandes aplicadores, aqueles que têm acesso a fundos DI com taxas inferiores a 0,5% ao ano. De agora em diante, quem aplica em Fundos DI com taxa acima de 0,5% deveria migrar para a Caderneta, mesmo com as novas regras.

Na verdade, o que o governo deveria ter feito era eliminar do cálculo a TR, taxa criada pelo Collor, e que é outra excrecência herdada dos tempos da hiperinflação. Simplificaria o entendimento das novas regras e atingiria o seu objetivo de maneira mais eficiente. Enfim, gastou capital político e fez o serviço pela metade.

PS.: Todo o raciocínio acima foi feito com Fundos DI, mas serve também para o Tesouro Direto. As corretoras cobram de 0,3% a 1% ao ano de taxa de custódia, o que equivale aos fundos DI mais baratos.

ATENÇÃO: Há uma errata a este post publicada em As novas regras da Poupança – uma correção.

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Comentários (08)

  1. DR. MONEY
    PARABENS PELO ARTIGO….DEVEMOS CONSIDERAR QUE 99,9999999999999999999 DA POPULAÇÃO QUE APLICA
    EM POUPANÇA NÃO SABE O O QUE É SELIC, CDI, TAXA DE
    ADMINISTRAÇÃO E TUDO MAIS….
    ABRAÇOS

    ANTONIO, em 08 de maio de 2012. Responder
  2. Este site tem um cálculo da TR, não sei se é o mais atualizado.

    http://www.cosif.com.br/mostra.asp?arquivo=mni061700

    Não conhecço bem estas fórmulas , mas talvez estajamos chegando no juros onde a TR é zero.

    Ricardo, em 04 de maio de 2012. Responder
  3. Dr Money,

    O fundo ainda leva a desvantagem do come-cotas. Sendo taxas equivalentes, poupança é vantajoso. Talvez poucas pessoas atente a este fato.

    Abraços,
    Sir Income

    Sir Income, em 04 de maio de 2012. Responder
    • Sir Income, você tem razão. Mas o efeito do come-cotas no aumento da alíquota efetiva é negligível no curto prazo. A esse respeito veja o post http://www.drmoney.com.br/investimentos/o-efeito-do-come-cotas-no-retorno-dos-fundos-de-renda-fixa/, e os comentários.
      Há uma outra vantagem dos fundos, que eu não abordei porque não era o foco, que é a liquidez diária. A poupança perde rendimento se não for resgatada no dia do seu aniversário. A importância dessa perda é inversamente proporcional ao tempo investido.
      Abraço e obrigado pela colaboração.

      Dr. Money, em 04 de maio de 2012. Responder
  4. Excelente post. Concordo que o serviço ficou pela metade e que além de extinguir a TR do cálculo da poupança o governo também deveria ter promovido uma redução na tributação dos fundos. Estes por sua vez (os fundos) deveriam reduzir suas taxas de administração que são extremamente altas neste país onde o povo é espoliado de todas as formas pelos agentes financeiros autorizados a funcionar pelo BACEN.
    Planilhas to go

    Gil Rodrigues, em 04 de maio de 2012. Responder
  5. Dr Money,
    Pelo que pesquisei sobre o cálculo da TR ela cai junto com a SELIC, e será 0 (zero) com a selic a 8%, mas concordo que ela deveria ser eliminada mesmo. Não concordo com o teto, se a selic subir é porque a inflação subiu e o rendimento da poupança também deveria subir, ou então que coloque o ipca como piso, afinal se tem um teto para evitar que a poupança tenha rendimento real, que pelo menos não fique com rentabilidade líquida negativa.

    Jason, em 04 de maio de 2012. Responder
  6. Até semana passada, quando fiz uma simulação, 90% dos títulos do tesouro eram mais vantajosos que a caderneta (considerando uma taxa de custódia de 0,2% aa).

    O que gostaria de ver simulado é o comportamento do CDI nesse novo cenário … nas taxas de março, o CDB ainda remunerava bem melhor.

    Tem como simular o CDI ?

    Marcus, em 04 de maio de 2012. Responder
  7. Prezado Dr Money

    Como ficaria a TR num cenário de juros baixos e inflação alta?

    Parece que a TR é calculada de acordo com o CDB, mas quais fatores influenciam mais?

    Juliano, em 04 de maio de 2012. Responder

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