Risco percebido e risco real: o que realmente comanda as decisões de investimentos

Reportagem da revista Exame (Investidores Ricos São Mais Agressivos) dá conta de que os investimentos mais arriscados são dominados pelos investidores com mais endinheirados (os chamados investidores qualificados), enquanto os fundos DI são a praia do pequeno investidor. Será que o investidor rico possui uma propensão natural a assumir mais riscos?

Esta reportagem dá oportunidade para explorarmos um conceito pouco conhecido pelo público em geral, mas bastante útil: o de Função Utilidade. Como sempre, vamos começar pelo básico: todo ser humano busca a felicidade. No mundo dos investimentos, essa verdade se traduz em algo mais prático: todo investidor busca, com os seus investimentos, um aumento do seu bem-estar.

A primeira regra básica é: o bem-estar é diretamente proporcional à riqueza. Quanto mais rico, maior o bem-estar. Todos concordamos com isso, certo? Vamos traduzir esta verdade através de um gráfico:

Propriedade 1 da Função Utilidade: Insaciabilidade.
O bem-estar aumenta na medida em que a riqueza aumenta

A segunda regra básica, e que não é tão direta quanto a primeira é: cada unidade extra de aumento de riqueza gera menos do que uma unidade extra de bem-estar. Por exemplo, se você tem R$ 1,00 de riqueza, ao ganhar outro R$ 1,00 você dobra a sua riqueza e a sua quantidade de bem-estar. Já se você tem R$ 1.000 de riqueza, ao agregar R$ 1,00 você aumenta a sua riqueza em apenas 0,1%, e o seu bem-estar aumenta apenas uma fração da do primeiro exemplo. O gráfico a seguir traduz este fenômeno. Note que o gráfico é curvo para baixo, indicando que cada unidade a mais de riqueza gera uma proporção cada vez menor de bem-estar adicional.

Propriedade 2 da Função Utilidade: utilidade marginal decrescente.
O investidor exige cada vez mais riqueza
para obter o mesmo acréscimo de bem-estar.

- Bem, mas o que isso tem a ver com o fato de os ricos gostarem mais de investimentos mais arriscados?

Simples. Para acrescentar o mesmo montante de bem-estar que os mais pobres acrescentam ao aplicar em fundos mais conservadores, os ricos precisam assumir mais risco. Uma outra forma de ver o mesmo fenômeno: os mais ricos já possuem um nível mínimo de riqueza que sacia a sua necessidade básica de bem-estar. Podem, portanto, assumir mais risco em um montante maior do que os mais pobres. Os mais pobres, por outro lado, não podem arriscar aquilo que é essencial para o seu bem-estar atual. Perder R$ 1,00, para os mais pobres, é bem pior do que a perda de R$ 1,00 para os mais ricos.

A função utilidade explica o fenômeno da diferença de aversão a risco entre os pobres e os ricos, mas só até certo ponto. Quando se trata de um investimento extremamente arriscado, mas também extremamente compensador, os mais pobres tendem a apostar mais do que os mais ricos. É o caso da loteria. Os pobres jogam proporcionalmente mais na loteria do que os mais ricos (veja este artigo aqui), apesar da loteria ser um investimento muitíssimo mais arriscado do que um fundo de ações, por exemplo. Ocorre que o prêmio da loteria é desproporcionalmente maior do que o potencial prêmio do fundo de ações. Assim, com uma pequena quantia, que não chega a avançar no bem-estar essencial dos mais pobres, estes têm a chance de obter um aumento substancial de sua riqueza e, por consequência, do seu bem-estar.

Creio, no entanto, que esta limitação da função utilidade é apenas aparente. O que ocorre é que o pobre atribui uma probabilidade muito maior de sucesso ao seu investimento em loteria do que na realidade existe. A distorção é causada por uma falha de percepção sobre os riscos do investimento. Não que o rico também não sofra da mesma falha de percepção. Ocorre que, para o rico, o prêmio, na maioria das vezes, não é tão atraente quanto para o pobre. Portanto, o rico não está tão disposto a gastar o seu tempo com isso. Não há, portanto, uma falha da função utilidade, mas sim uma falha de percepção do investidor sobre os riscos envolvidos.

Vamos a um outro exemplo: os fundos de capital protegido. Neste tipo de fundo, o gestor aplica uma parcela dos recursos no mercado acionário, mas garante que, pelo menos, o principal aplicado será devolvido ao investidor depois de um certo tempo. Neste caso, a percepção do investidor é distorcida pelo fato bastante atraente de “não perder dinheiro”, e ao mesmo tempo poder abocanhar uma parte da alta da bolsa, se a bolsa efetivamente subir. Qual a falha de percepção aqui? Simples: o investidor considera “perder dinheiro” apenas o fato de ter uma rentabilidade negativa. Esquece que, ao deixar de investir em uma alternativa mais conservadora (um fundo DI, por exemplo), ele já está “perdendo dinheiro”, ao deixar de ganhar a rentabilidade do DI no período. A função utilidade continua em vigor, mas o investidor conservador assume mais risco do que normalmente assumiria, somente pelo fato de ter uma percepção distorcida sobre o risco do investimento.

O mundo dos investimentos baseia-se essencialmente no conceito de risco x retorno. A mensuração do risco é um problema ainda em aberto, pois depende em parte da percepção do investidor. As Finanças Comportamentais procuram justamente uma explicação para o comportamento dos investidores fora da teoria tradicional de portfólios, em que o risco é traduzido simplesmente pelo desvio-padrão dos retornos esperados, e o investidor é um maximizador de sua função utilidade. Ainda não há (haverá algum dia?) uma resposta definitiva sobre o que comanda as decisões de investimento. O debate continua.

Compartilhe este artigo

Artigos relacionados

Escreva um comentário