É para ter medo de uma bolha de crédito no Brasil?

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Muitos investidores estão com medo de que a chamada “Bolha de Crédito”, assim como desgraçou a economia americana, também tenha consequências negativas por aqui. No que consiste uma bolha de crédito? Basicamente, no endividamento excessivo das famílias, com o consequente aumento da inadimplência, levando, por fim, à quebra do sistema financeiro. Estamos próximos a algo assim no Brasil?

Para começar, vejamos o que tem acontecido com o endividamento das famílias, segundo dados do Banco Central:

A linha vermelha representa o endividamento das famílias em relação à renda acumulada nos últimos 12 meses. Uma trajetória que realmente impressiona: em pouco mais de 5 anos, o endividamento praticamente dobrou! Dá medo!

Mas observe a linha azul: ela representa o quanto da renda das famílias está comprometida com o pagamento de suas dívidas. Aumentou de 15% para pouco mais de 20% em 5 anos. Ou seja, quase nada. Como pode ser isso? Se a dívida aumentou tanto, como o pagamento dela não aumentou na mesma proporção? Para entender, veja os dois gráficos a seguir:

O primeiro gráfico mostra que o prazo médio dos empréstimos aumentou de maneira relevante: os empréstimos de longo prazo aumentaram de 10% para quase 25% do estoque, enquanto os de curtíssimo e curto prazo diminuíram de 60% para 45%. Com mais prazo para pagar, a parcela fica menor, comprometendo menos da renda da família.

O segundo gráfico mostra a taxa de juros média paga nos empréstimos. Nos últimos 5 anos, caiu de mais de 60% ao ano para módicos 45% ao ano. Continua sendo uma enormidade, mas é 25% menor. Com uma taxa menor, os juros pagos são menores, comprometendo uma parcela menor da renda.

Assim, tivemos de fato um aumento da exposição ao crédito. Mas foi um aumento virtuoso, fruto do alongamento e de taxas menores, o que, no final, resultou em um acréscimo pouco significativo da renda das famílias comprometida com o pagamento de dívidas. Esta é uma tendência que deve continuar, mas ainda estamos a anos-luz da insanidade que tomou conta do mercado norte-americano. Chegaremos lá, mas vai demorar ainda alguns anos.

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Comentários (01)

  1. Dr Money, de fato o perfil da dívida das famílias vem melhorando, mas há um pequeno problema com sua lógica: A experiência americana mostra que usar indicadores de serviço da dívida/renda pode levar facilmente a equívocos.

    Veja o indicador deles:
    http://research.stlouisfed.org/fred2/series/TDSP?cid=97

    Perceba que o indicador deles é bem menor que o nosso e cresceu bem menos. Fora a ‘explosão’ em torno de 1985 que não causou uma catástrofe.

    Creio que o indicador de dívida/renda seja melhor, mas ainda insuficiente.

    Luís Monteiro, em 11 de fevereiro de 2012. Responder

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