Vale a pena migrar para fundos mais baratos?

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Um amigo manda-me uma questão:

“Os bancos estão diminuindo o montante inicial para investimento em fundos DI. Por exemplo, tenho R$ 30.000 aplicados em um fundo DI de um grande banco, cuja taxa de administração é de 3% ao ano. Quando eu apliquei neste fundo, há 1 ano, o montante mínimo para entrar era de R$ 10.000. Hoje, é de R$ 5.000. Já um fundo DI no mesmo banco com taxa de 2% ao ano tem montante mínimo de aplicação de R$ 10.000. Na época era de R$ 40.000 e, portanto, não podia investir neste fundo. Hoje, no entanto, eu posso migrar para este fundo mais barato. Vale a pena?”

A pergunta é muito boa. Antes de mais nada, vamos entender porque os bancos estão fazendo isso. Todos devem ter acompanhado o debate sobre a instituição do imposto de renda sobre os rendimentos da Caderneta de Poupança. A questão era a seguinte: como a Caderneta é isenta de imposto, seu rendimento já estava ficando maior que o dos fundos DI com taxa de administração mais alta. Como esses fundos são os grandes compradores de títulos públicos, a rolagem da dívida pública ficava ameaçada, pois, se os fundos sofressem grandes resgates, deveriam vender os títulos públicos de suas carteiras para pagarem os investidores. No final, por ser uma questão politicamente delicada, a tributação da Caderneta foi colocada de lado, e os bancos tiveram que se virar. O que poderiam fazer, então? A primeira e óbvia alternativa seria simplesmente diminuir as taxas de administração de seus fundos, de forma a proporcionarem rentabilidades superiores depois da cobrança da taxa. Essa solução, no entanto, faria com que os bancos perdessem imediatamente grandes receitas com os atuais fundos. Imagine, por exemplo, um fundo DI com patrimônio de R$ 1 bilhão e taxa de administração de 3% ao ano. A receita gerada por este fundo seria de R$ 30 milhões por ano. Se o banco diminuísse a taxa de administração para, digamos, 2% ao ano, estaria abrindo mão imediatamente de R$ 10 milhões de receita. Não é pouco dinheiro. O que fizeram então?

Simples: diminuíram o montante mínimo de aplicação dos fundos DI, sem alterar a taxa de administração. Assim, utilizando o exemplo do meu amigo, um fundo que cobra 2% de taxa de administração diminuiu o montante mínimo de aplicação inicial de R$ 40.000 para R$ 10.000. Dessa forma, todos os atuais investidores deste fundo continuam pagando 2% ao ano, mas os novos investidores, que antes teriam que entrar em fundo com taxa de 3% ao ano, podem agora aproveitar o fundo com taxa de 2% ao ano.

– Mas, Dr. Money, os investidores antigos com mais de R$ 40.000 investidos, não podem migrar para um fundo ainda mais barato, que cobre, por exemplo, 1% ao ano? Desta forma os bancos não perderiam esta receita de qualquer forma, pela migração dos atuais investidores para fundos mais baratos?

Aqui entra a pergunta do meu amigo. Vale a pena migrar? Se não houvesse o imposto de renda com alíquotas regressivas, a resposta seria certamente positiva. No entanto, sabemos que, quanto mais tempo um investidor permanece em um fundo, menos imposto de renda ele vai pagar. No caso em questão, o meu amigo está há um ano no fundo. Ele já adquiriu o direito de pagar uma alíquota de IR de 17,5% sobre os rendimentos. Se ele migrar, a sua alíquota voltará a ser de 22,5%. Só para fazer a conta, digamos que ele pretenda usar o dinheiro em 3 meses. Assim, se migrar, ele economizará 0,25% de taxa de administração, resultado da diferença de 3% para 2% ao ano, calculado para 3 meses. No entanto, ele pagará 5% a mais de imposto sobre os rendimentos. Para um fundo DI, o rendimento atual de 3 meses de um fundo que cobra 2% de taxa é de aproximadamente 1,7%. 5% sobre isso equivale a 0,08%. Portanto, valeria a pena a migração, neste caso. Se a diferença de taxas de administração fosse de apenas 0,5%, e a diferença de alíquotas de IR fosse de 7,5%, a migração seria indiferente para esse período de 3 meses.

Obviamente, são pouquíssimos os investidores que fariam todas essas contas. Há uma inércia grande, e os investidores tendem a permanecer onde estão, por ignorância ou comodismo. É com isso que os bancos contam para manterem as suas receitas.

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Comentários (02)

  1. Já que o assunto são fundos de renda fixa e taxas de administração, aí vai uma pergunta: para quem tem como estratégia manter-se em renda fixa, não seria uma melhor opção o Tesouro Direto? Ou, para este perfil conservador, vale a pena pagar uma taxa de administração, ainda que de 1% ao ano, para um gestor de banco ou corretora?

    Roberto Pina Rizzo, em 01 de março de 2010. Responder

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